6 de novembro de 2013

Cris Cyborg

Esporte: MMA

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Fotos: Marcio Valle/Divulgação :: Por Rafaella Malucelli  // 

Uma esportista nata. Quando ainda respondia apenas por Cristiane Santos, ela já sabia que era no esporte que queria fazer a sua vida, mas antes dos 19 anos ainda não tinha claro qual seria o seu destino. “Eu sempre gostei de esporte e sempre fui bem no que eu praticava. Eu orava e pedia para que eu pudesse ganhar a vida num esporte, não importando qual. E deu certo”, conta. Ela é assim mesmo, determinada. E foi dessa forma que construiu sua carreira em um esporte ainda pouco difundido entre as mulheres, o Mixed Martial Arts, ou MMA, e também é dessa forma que passa por cima das adversidades, como ter caído noantidoping e, recentemente, passado pela separação de seu marido, Evangelista Cyborg, de quem herdou o sobrenome.

O sangue de competidora já corria com força em suas veias ainda na época de colégio, quando praticava handebol e depois atletismo. Foi então que um professor da Chuteboxe que sempre a via treinando na faculdade acabou por convencê-la a fazer um treino. “Eu não sabia muita coisa sobre o esporte, mas vi que eu gostava, porque só depende de você. Já tinha saído do handebol e ido pro atletismo, porque às vezes você se empenha, e a sua companheira não.”

Cris pode se dizer privilegiada. Começou em uma época em que treinava com os melhores do MMA mundial, e lá estavam eles em Curitiba. “Me inspirei nos atletas da minha academia, o Wanderlei Silva, o Cyborg, o Shogum. Eles estavam lá e já eram os tops. Fui privilegiada. E eu nem tinha noção e nem sabia quem eles eram, não conhecia ninguém. Eles sempre foram gente boa, mas conquistei meu espaço aos poucos, fui e mostrei que estava lá de forma séria. Apanhando e batendo. Já saí chorando, mas no outro dia sempre estava lá.”

Foram precisos apenas dois meses para que o potencial de Cris Santos fosse revelado. “Tudo que eu fazia eu competia, então quis uma luta.” Seis meses depois de começar a treinar muay-thai, ela já estava no octógono. “Para a luta, comecei a treinar as outras modalidades, mas perdi. Desloquei o ombro.” Essa foi a única luta que a atleta, agora assinando como Cris Cyborg, perdeu até hoje. E foi essa mesma luta que a fez ter certeza do que queria: ser lutadora profissional de MMA.

Nascia Cris Cyborg. O sobrenome veio do então parceiro de treino que virou namorado, marido e recentemente ex-marido. “Na minha primeira luta, eu era Cris Chutebox. Depois ele falou para coloar Cris Cyborg, a gente não era nada, só namoradinho.” Mas também não demorou muito para a coisa ficar séria entre os dois, e em seis meses se casaram. Depois de seis anos de união, em fevereiro deste ano, Cris anunciou o fim de seu relacionamento em nota oficial, e reforçou o otimismo presente o tempo todo nesta entrevista: “Por mais que pareça difícil, nunca abandone seus sonhos ou desacredite no amor!”.

Aqui no Brasil foram cinco lutas, e aí começou o problema que ela enfrenta até hoje: a falta de adversárias à altura. Foi então que aconteceu a mudança para os Estados Unidos. “Fiquei uns seis meses sem lutar no Brasil e fiz minha estreia nos EUA em 2008. Aí comecei a lutar só lá. Em 2009 conquistei o cinturão noStrikeforce. Me mudei para os Estados Unidos porque, quando eu lutei lá, vi que o MMA feminino era mais valorizado do que aqui, tinha mais oportunidades, e também para os patrocinadores era melhor, pois lá se divulgava melhor o nome deles.”

Hoje Cris dá aulas só para mulheres, nos EUA, além de treinar todos os dias ‒ uma média de três a quatro horas por dia. Ela diz que se sente responsável por mostrar o valor do MMA feminino. “Onde eu dou aula, tem um monte de crianças e mulheres que se espelham em mim, então eu tento dar o exemplo na luta e também fora dela. É uma responsabilidade. O que eu puder fazer para [fazer] crescer o esporte feminino, eu vou fazer, mostrar que luta feminina não é puxar o cabelo e enfiar o dedo no olho. Eu tento mostrar fazendo boas lutas, mostrando que as mulheres são capazes, têm técnica, podem chegar lá. Eu acredito nisso.” O objetivo dela para este ano é arranjar um sócio, para montar sua própria academia.

O cinturão e o antidoping

Depois de conquistar o cinturão, Cris encarou uma grande dificuldade que já tinha enfrentado anos antes no Brasil: a falta de oponentes. Ficou um ano e meio sem lutar, e só no final de 2011 retornou ao octógono. “Como eu tenho o cinturão do evento, é ruim; aliás, ter o cinturão é bom, mas como não tem muita mulher, é ruim, pois tem que exigir muito da minha oponente. Elas, para lutarem comigo, precisam ter um número de lutas e um número de vitórias, pois se ela ganhar não pode ser campeã com apenas uma luta. Isso me limita. Pra homem é diferente”, conta.

Para conseguir adversárias, a luta de Cris Cyborg agora é contra o peso. Ela quer baixar de categoria, de 65 kg para 61 kg. “Tem mais meninas nessa categoria. É um sonho, porque é difícil. Estou conversando com um médico para tentar emagrecer, pois eu ia poder lutar mais. O que acontece é que elas lutam comigo e baixam de categoria, elas estão fugindo de mim, na realidade. Então estou sem luta.”

Foi nessa busca para baixar de categoria que Cris caiu no antidoping, que apontou a presença de metabólicos de esteroides no seu organismo no dia da luta em que ela venceu Hiroko Yamanaka, em 17 de dezembro de 2011. Ela se diz responsável por tudo que colocou no corpo, porém afirma que não sabia que uma das substâncias presentes no suplemento alimentar que estava tomando para perder peso estava fora das regras da comissão atlética.

“Todo mundo que me conhece e segue minha carreira sabe que não preciso tomar nada para ganhar uma luta, eles sabem disso”, defende-se. “Eu estava tomando remédio para emagrecer, porque depois de um ano e meio sem lutar eu precisava mudar de categoria, e não estava conseguindo. Mesmo com cinturão você precisa continuar lutando, você acha que o cinturão vai mudar sua vida, mas não é bem assim. O evento não me valorizou, e me senti desmotivada”. É com esse argumento que irá à corte na Califórnia pedir a diminuição da punição de um ano para seis meses.

“Nunca tomei nada desse tipo, na minha carreira inteira sempre fiz teste antidoping e nunca deu nada. Não foi pra ser mais forte que alguém, mas para perder peso, e isso que vou falar na Corte. Foi um vacilo, eu devia ter consultado um médico antes”. Infelizmente o antidoping custou para Cris, além da suspensão, uma multa de 2.500 dólares e ainda o cinturão dos pesos-pena do Strikeforce.

BATE PAPO COM CRIS CYBORG

Entrevista: Rafaella, Ângelo Sfair e Ingrid Decker.

Você dá aula para meninas nos EUA. Tem alguma pupila em quem você aposta?

Na verdade as meninas aqui no Brasil são mais “sangue no olho”, elas querem bater mesmo. Lá, não. Eu estou começando a fazer um muay-thai fitness. Aí, quando eu achar alguma que treina mais duro, vou colocar pra treinar comigo. Mas ainda não apareceu nenhuma.

De quando você começou pra cá, há mais mulheres lutando?

Melhorou, mas na minha categoria não tem muito, na outra tem mais. Mas acredito que está crescendo, tem muita menina lutando. Agora com a TV virou febre. Antes, até minha mãe falava: “Só maloqueiro luta”; é um preconceito antigo. Depois que ela foi vendo que era um trabalho, e não uma briga, ela aceitou. Numa luta, os dois estão preparados para isso, é um esporte. Esse pensamento ainda existe porque tem uns bobões que treinam e vão brigar na rua.

Já sofreu preconceito por ser lutadora mulher?

Nos treinos, era sempre eu e mais uns 40 homens, e nunca sofri preconceito. Mas também eu ia lá, treinava e ia embora, nunca dei brecha para pensarem que eu era “Maria-tatame”, porque essas “queimam muito o filme”. A maioria vai treinar para outra coisa. Mas, por ser lutadora, nunca tive problema algum. Se você for lá, treinar certinho e respeitar todo mundo, todos vão te respeitar.

Você acha que as mulheres têm algumas limitações, se comparadas aos homens?

Eu acho que a mulher pode ser capaz de lutar como os homens. Eu treino com homens. Eles batem em mim, eu bato neles. Então, se eu posso, todas podem. Você pode chegar aonde quiser se for determinada, se tiver objetivo. Isso em qualquer coisa, não só na luta. Dedicação dá certo. Quando eu comecei, o feminino não tinha estrutura quase nenhuma, e eu cheguei lá.

Você já brigou fora do octógono?

Nunca briguei na rua, só apanhei, quando era criança. As criancinhas da minha rua não gostavam de mim, se juntaram e me bateram. Eu tinha uns nove anos, nunca fui de brigar.

Atualmente quem é seu ídolo?

Anderson Silva. O cara é sinistro! Tem o John Jones e o José Aldo. Vários espelhos brasileiros, o Brasil é top. Gosto também do russo Fedor e do Hust, coloquei o nome deles nos meus cachorros.

A americana Ronda Rousey vive alfinetando você. Ela a desafiou?

Na verdade essa menina fica falando que quer lutar comigo, e eu falei que queria lutar com ela, porque ela fala demais. Mas ela vive correndo de mim, ela baixou de categoria e fica falando besteira, não lutou comigo quando estava na minha categoria. Agora já é pessoal, vou baixar de categoria para pegar ela.

Você está torcendo então para ela pegar o cinturão?

Pra mim é bom que ela pegue o cinturão da categoria, mas a adversária dela, Michelle, é minha amiga e é boa. Então também quero que ela ganhe, até para fechar a boca dessa americana.

Como é o clima entre as meninas e a relação nos bastidores em geral?

Eu não sou como essa americana, não gosto de ficar falando. Eu respeito todas as minhas adversárias, porque, se você fala demais, você vai morder a língua. Eu me dou bem com todas as meninas, depois de cada luta eu cumprimento elas. É um esporte, a gente não está brigando, não tenho nada pessoal. Se eu vou lutar, eu quero ganhar, é meu trabalho. Se eu perder, vou ficar com raiva, mas não da pessoa, e sim da situação.

Você é religiosa. Como a religião ajuda?

Luta é tenso, é difícil, adrenalina. Às vezes dá um medo e você tem que ter uma força superior ali com você. Em tudo. Saber que você está protegida.