31 de janeiro de 2014

Gisele de Oliveira

Esporte: Atletismo

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Por Fabrício Falkowski  //

“Impossível”, “improvável”, “difícil”, “complicado” são palavras riscadas do dicionário usado por Gisele Lima de Oliveira. A trajetória, no esporte e na vida, comprova a sentença e transformou-se em exemplo. Ela superou lesões e desconfianças e construiu um currículo impressionante de vitórias nas pistas e nos bancos acadêmicos. Agora, aos 30 anos, a atleta volta à Sogipa, sua segunda casa desde a infância, para alcançar mais um objetivo: disputar a segunda Olimpíada da carreira.

“É difícil imaginar o que seria da minha vida sem o esporte, mas nunca me contentei com pouco. Aprendi que disciplina se assimila, mas perseverança vem com a pessoa. É uma característica nata”, observa.

Tudo começou em 1991. Aos 11 anos, Gisele participou de um torneio Comunidade Escolar, espécie de caça-talentos para as categorias de base da Sogipa. Representava o Colégio São Francisco, na Zona Norte de Porto Alegre. Venceu algumas provas e foi chamada para treinar no clube, seguindo os passos do irmão Gílson, talento nas provas de velocidade e nos salto em distância.

A primeira barreira foi a estatura. O 1,60 metro é considerado insuficiente para uma saltadora. Mas ela logo mostrou que compensaria isso com empenho nos treinos e atenção aos detalhes técnicos. “A Gisele tem uma capacidade intelectual e um poder de concentração muito grandes. Foi isso que a fez ser diferente”, confirma o técnico José Haroldo Loureiro Gomes, o Arataca. Aos poucos, Gisele foi evoluindo, conquistou títulos no Brasil e no exterior e transformou-se em uma das atletas mais vitoriosas do Rio Grande do Sul.

Aos 14 anos, venceu um Campeonato Sul-Americano para atletas de até 16 anos. Foi a prova derradeira de que o esporte faria parte, definitivamente, da sua vida: “Depois desse título, passei a dedicar-me ainda mais ao salto em distância”, revela a atleta.

Paralelamente, ela ia construindo uma vida escolar invejável. Logo que chegou à Sogipa, ganhou uma bolsa de estudos no Colégio Americano, onde concluiu o ensino fundamental e o médio, sempre com notas máximas. “Ela aproveitou todas as chances que teve”, confirma Arataca. Depois, ingressou na Unisinos para cursar Comércio Exterior. As grandes mudanças, porém, estavam recém-começando.

Após dois semestres em São Leopoldo, Gisele foi convidada para trocar Porto Alegre, a Sogipa e a companhia dos amigos pela pequena Clemson, na Carolina do Sul, nos Estados Unidos. Era 2001, e a carreira de atleta começava a ganhar maior impulso com duas medalhas de prata no Troféu Brasil. “Foi complicado, pois essas medalhas provaram que eu tinha futuro no esporte. Mas eu já tinha tomado a decisão de ir para os Estados Unidos. E fui”, conta.

Na Clemson University, Gisele transformou-se em lenda acadêmica e das pistas – ao ser a primeira atleta da instituição a conquistar o título de campeã norte-americana universitária. As notas excelentes lhe renderam homenagens, medalhas e, principalmente, uma bolsa de pós-graduação, projeto adiado. Afinal, era hora de reviver o sonho olímpico.

Voltou ao Brasil em 2006, a tempo de preparar-se para os Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro. Uma lesão, porém, atrapalhou os planos. Tinha de fazer uma cirurgia no joelho. “Todo mundo dizia que eu nunca mais ia saltar. Mas eu acreditava. Eu, o Arataca e o meu médico (Cristiano Laurino) acreditávamos que era possível retomar a carreira após uma recuperação bem feita”, lembra a atleta.

E ela voltou. Como se nada tivesse ocorrido, retornou às pistas na Sogipa, em dezembro do mesmo ano. Depois, em abril de 2008, atingiu o perseguido índice olímpico. Ao saltar 14m28cm, selou a conquista da vaga para os Jogos de Pequim. “Superei a cirurgia e a frustração de não ter conseguido ir para Atenas em 2004”, afirma Gisele, lembrando os dois centímetros que lhe faltaram para atingir o índice olímpico para a Olimpíada anterior.

Hoje, Gisele é formada em Comércio Exterior por uma importante universidade norte-americana e é também uma atleta olímpica. Acima de tudo, é uma prova viva de que é possível conciliar esporte de alto rendimento com estudos. Agora, aos 30 anos, ela voltou ao convívio dos seus. Na Sogipa outra vez, serve com inspiração para as novas gerações. Prova a cada dia que não há limite para o sonho quando não faltam trabalho e perseverança.

“O pessoal mais jovem faz questão de me cumprimentar, de falar comigo. Sinto que sou observada. E eu tento ajudar conversando e dando conselhos”, diz a atleta. Arataca, o treinador, confirma a importância da sua presença para a gurizada: “Ela é um ícone de sucesso, tanto na vida esportiva quanto na pessoal. É um exemplo que arrasta os novos atletas. Ela serve de espelho para os mais jovens. O discurso sempre ajuda, mas um exemplo vivo como ela é muito mais forte”.

O esporte forjou Gisele Lima de Oliveira. Mas encontrou solo fértil em talento e força de vontade. Os objetivos, porém, não cessaram. Ela quer ir para Londres, ano que vem, com a camisa da Sogipa sob a do Brasil. “Voltar para cá era um sonho que eu consegui realizar. Estou de novo ao lado das pessoas que sempre me incentivaram e me apoiaram. Agora, quero botar os meus pezinhos no Memorial Olímpico*”, finaliza.

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*O Memorial Olímpico é um espaço onde a Sogipa homenageia os homens e mulheres que representaram o clube em alguma edição das Olimpíadas. Nele, estão gravados as mãos ou os pés dos atletas olímpicos sogipanos desde 1988.