13 de dezembro de 2013

Janine Cardoso

Esporte: Escalada Esportiva

foto marcelo maragni red bull content pool
foto 2 marcelo maragni red bull content pool
calendário 2010

Fotos: Marcelo Maragni/RedBullContent e Portugal Braga  //

A escalada esportiva no Brasil atualmente possui muitos praticantes.  É gente pelo Brasil todo, muitas mulheres praticando escalada esportiva, tradicional, boulder… É uma filosofia que muitos abraçam, principalmente a praticada na rocha, sem pressão por resultados. 

Janine Cardoso sempre foi louca por esportes de natureza. Desde criança, realizou trilhas estimulada pelo pai e tios, e, em algumas subidas para a Pedra Grande, em Atibaia,  viu algumas pessoas praticando escalada. Mas quando seu irmão apresentou a modalidade após ter praticado com amigos em uma viagem de escola ‒ esses mesmos amigos já praticavam a escalada indoor e em rocha ‒, foi amor à primeira vista, à segunda, à terceira… até hoje. Amor verdadeiro!

Pegamos Janine numa dessas subidas para uma entrevista e, entre uma subida e outra, descobrimos que essa mulher vale por duas!

Nome: Janine Cardoso.

Apelido: Jan.

Data de nascimento: 09/04/1974.

Local de nascimento: São Paulo – SP.

Profissão: Jornalista e atleta de escalada.

1)  Pelo fato de ser um esporte de pouca divulgação, pelo menos aqui no Brasil, gostaríamos de saber como você descobriu a escalada esportiva.

Eu sempre fui louca por esportes de natureza; desde criança realizo trilhas estimulada pelo meu pai e tios, e, em algumas subidas para a Pedra Grande, em Atibaia,  vi algumas pessoas praticando escalada. Meu irmão me apresentou a modalidade após ele ter praticado com amigos em uma viagem de escola. Ele me incentivou a adquirir uma sapatilha de escalada, e eu fui experimentá-la no ginásio 90 graus, em São Paulo.

Meu irmão Alexandre, que me apresentou a escalada, é montanhista também. Minha irmã, Paloma, também escalou durante um bom tempo, tendo vencido campeonatos inclusive, mas parou há alguns anos. A relação dela com a escalada foi mais curta, porém muito intensa e frutífera. É uma família de esportistas.

2)  Você tem uma filha, né? Como foi praticar e conciliar a vida de atleta no período da gravidez?

Eu tenho uma filha de oito anos. Eu pratiquei escalada até o último dia de gravidez, com moderação, acompanhamento médico adequado e controle de riscos, para evitar impactos. Eu praticava mais top-ropes (com a corda presa no alto, em uma escalada que minimiza os riscos de impacto contra a parede e diminui a dificuldade dos movimentos). Escalava mais para alongar o corpo, aliviar a mente, suar, encontrar os amigos.  Competi em um campeonato paulista grávida de três meses, e aí a escalada foi guiada (corda vindo de baixo, sendo fixada pelo escalador conforme a subida, em pontos distribuídos ao longo da via percorrida na parede). Nesse caso, eu escalei consciente, com movimentos estáticos, certa de que não haveria queda inesperada com risco de impactar na parede. Quando cheguei a um movimento mais dinâmico, em que eu teria de me lançar, correndo o risco de não ficar na agarra, optei por parar a escalada e me pendurei na corda fixa na última proteção.

3)  Você aconselha a prática do esporte para qualquer tipo de pessoa? Mesmo que ela não tenha aquele dom para atividades físicas?

Eu aconselho que qualquer pessoa experimente. Sem restrições de idade ou peso. Existem opções para todos os gostos e níveis, mas, sem dúvida, a pessoa tem de ser mordida pelo bichinho da escalada. Ou seja, tem de se apaixonar por todos os aspectos inerentes à prática, superar os tabus que envolvem o medo, já que é um esporte seguro, se praticado com consciência.

4)  Quais os principais benefícios que a escalada indoor ou outdoor pode trazer ao esportista amador?

A escalada indoor é uma forma de deixar os problemas do trabalho e do dia a dia de lado, porque, se você não esquecer, não vai conseguir chegar ao topo. Sequer vai conseguir sair do chão, pois é preciso muito foco em todos os detalhes que envolvem a realização de um movimento.

Na prática outdoor, a escalada nos leva a lugares mais inóspitos, distantes da cidade, normalmente com uma vista incrível, onde a superação e o sentimento de liberdade são ainda mais intensamente vividos.

Acredito que um aspecto marcante na escalada seja o fato de ela ser uma prática extremamente introspectiva e individual, na qual sua atenção tem de estar totalmente voltada para o momento, para o agora, para você e seu corpo, sendo que distrações externas o tiram literalmente do eixo (risos). É um esporte em que existe competitividade, mas o maior adversário somos nós mesmos.

5)  Como é a sua rotina de treinos? Tem patrocinadores?

Hoje eu treino cerca de três vezes por semana a escalada indoor, duas vezes por semana faço corrida e exercícios compensatórios, e cerca de duas vezes por semana, outdoor (na rocha). Normalmente, reservo um dia de descanso total.

 6)  Você tem algum cuidado especial com a alimentação, ou não tá nem aí para as regras básicas?

Me alimento de três em três horas, com muita salada, carboidratos, proteínas, vitaminas, sucos, frutas, etc. Aquela coisa básica de nutrição, não tem jeito, né. Eu tomo uma taça de vinho após os treinos, é meio que sagrado. Minhas perdições são quando me rendo à segunda taça, caso o vinho  seja muito bom. Acabei de voltar da Itália, onde rolou o Campeonato Mundial de Escalada, e trouxe alguns muito bons na mala, que estão me dando esse problema de não querer parar na primeira taça .

Realmente evito frituras, de qualquer tipo, e meus doces entram de maneira ponderada após uma refeição ou logo após treinos. No fundo, gosto de saborear um belo bombom e pronto… fico satisfeita. O corpo pede após a refeição. No fundo, eu sigo as regras básicas, e elas nos permitem comer superbem, com muito sabor, principalmente quando praticamos atividades físicas.

7)  Você hoje já possui quantos títulos nacionais e internacionais?

Sou heptacampeã brasileira de escalada esportiva ‒ modalidade dificuldade. Após anos de vitórias consecutivas no brasileiro, fui vice-campeã em 2010 devido aos três meses sem escalar quando estava participando do programa Hipertensão, na Globo. Internacionalmente, eu cheguei às semifinais do circuito mundial por duas vezes em 2006, uma etapa na Bélgica e outra na Espanha. Na época tinha o patrocínio da Brasil Telecom, que me permitiu focar nos treinamentos, sem trabalhar em outros lugares, a não ser como atleta. Até então, nenhum atleta brasileiro havia chegado às semis, e até agora nenhuma outra atleta mulher classificou-se para as semis no feminino.

08)   Qual deles foi o mais importante e por quê?

Nossa, todos foram importantes. Mas sem dúvida a classificação na Copa do Mundo em 2006 me marcou, por ser algo que eu vinha buscando desde 2000, por ter havido muita dedicação, muita paixão em cima. Até então, nenhum brazuca tinha conseguido ainda. Ganhei o prêmio da revista Go Outside no ano seguinte, me motivando ainda mais a buscar a evolução, tanto para mim como para o esporte e para futuras gerações.

09)  Ano passado você participou do programa Hipertensão, da TV Globo. Como foi que eles a descobriram? Você achou legal ter participado? Ajudou na sua carreira?

Eu estava treinando na Casa de Pedra e eles me viram por lá, no empenho de escaladas guiadas, em treinamento pré-mundial. Ou seja, eu estava nas alturas o tempo todo (risos). Foi uma experiência rica e divertida participar, desafiante pelas provas novas e pelas possibilidades de encarar provas gastronômicas, mas o desafio maior foi lidar com as diferentes personalidades, que no fundo estavam buscando vencer também, cada um com uma estratégia. Eu fui pensando em mais um desafio, em uma nova vivência que poderia, além de tudo, render R$ 500 mil. No fundo, deu uma visibilidade que eu não imaginava e me proporciona algumas oportunidades e boas risadas até hoje.  Como sou jornalista focada na área esportiva, voltada para viagens de aventura, tive algumas vivências em programas esportivos e analisei algumas outras propostas, mas todas comprometiam minha paixão pela escalada, além de complicar minha presença como mãe. Então optei por ampliar meu trabalho na revista também na área de publicidade, além de continuar escrevendo sobre escalada e montanhismo.

10)  Para as pessoas que não entendem muito sobre o esporte: como é julgada a escalada em uma competição? Ganha quem chega mais rápido ao ponto determinado? Ou tem alguma outra forma de julgar quem é o campeão?

Existem três modalidades oficiais na escalada esportiva ‒ boulder, dificuldade e velocidade.

Caso a escalada seja o esporte escolhido para fazer parte das Olimpíadas (em votação em 2013, na qual o Comitê Olímpico Internacional escolherá uma modalidade para as Olimpíadas de 2020 e, talvez, como apresentação em 2016), essas devem ser as três modalidades participantes.

No circuito de boulder, os atletas enfrentam cinco desafios curtos e explosivos, com cinco minutos para tentar cada desafio e mais cinco minutos de descanso entre cada um deles. Vence aquele que fizer os boulders com menos tentativas nesses cinco minutos (à vista, ou seja, na primeira tentativa, pontua mais), ou os que vão conseguindo dominar as agarras bônus no meio do boulder (sendo levado em conta também o número de  tentativas até a agarra bônus).

Na modalidade dificuldade, as vias contam com cerca de 50 movimentos, e o escalador tem apenas uma chance de escalar a via proposta, com tempos que variam entre seis e 10 minutos para a via classificatória. Se o atleta cair uma vez, a pontuação é registrada conforme a agarra atingida naquele ponto, e o escalador parte para a segunda via classificatória. Com isso, as duas vias são somadas e tem-se a colocação nessa fase.  No mundial, são 26 semifinalistas e oito finalistas. Essa modalidade é a que mais me atrai, por sua fluência de movimentos mesclada a movimentos muito difíceis, exigindo força, técnica, resistência e estratégia.

 11) Como você avalia o esporte hoje no Brasil?

O esporte no Brasil possui muuuuuitos praticantes, você não tem ideia. É gente pelo Brasil todo, muitas mulheres praticando escalada esportiva, tradicional, boulder… É uma filosofia que muitos abraçam, principalmente a praticada na rocha, sem pressão por resultados.  Contudo, a escalada de competição está muito largada, pois a escalada como esporte não tem o apoio governamental e empresarial necessário para manter um ranking nacional (como houve durantes alguns anos entre 2002 e 2008). Acredito que muito disso seja por falta de motivação e por sermos o país do futebol, sem a cultura dos esportes de montanha.

Estamos tentando reverter essa situação dentro da CBME (Confederação Brasileira de Montanhismo e Escalada), revendo formas de conduzir a escalada competitiva de maneira mais profissional, já que temos atletas profissionais em todas as modalidades, com potencial de destaque em competições internacionais.

Não dá para comparar com a estrutura que os países europeus possuem tratando-se de suporte a atletas e equipes, estímulo para jovens, valorização do trabalho geral dentro da escalada.

12)  Quais os melhores locais aqui para praticar?

Nossa, são mmuuitos. Tratando-se da escalada esportiva em rocha, temos a Serra do Cipó, a Lapa do Seu Antão, próximo a Belo Horizonte. Ainda em Minas, temos a Pedra da Piedade, em Itajubá, com campo escola e festivais anuais, assim como muitos outros points pelo estado.  No Paraná, tem Anhangava, com esportivas e boulders, Ilha do Mel, Falésia do Curucaca, Escaladas, em Ponta Grossa, e muitas paredes que eu não conheço ainda, apenas ouvi falar sobre as belas vias.

Em São Paulo, opções não faltam, mas uma boa dica é São Bento do Sapucaí, com escaladas para iniciantes até veteranos. Há também Pedra da Divisa (divisa entre SP e Minas), Falésia dos Olhos, Vista Aérea, Falésia do Coimbra, Pedra do Baú, Bauzinho, Ana Chata… São bastantes opções.

No Rio de Janeiro, há um leque gigantesco, com destaque para as clássicas esportivas da Pedra do Uruba, na Gávea; algumas linhas lindas no Pão de Açúcar; o Campo Escola 2000, na Floresta da Tijuca; a Falésia da Barrinha, na Barra. Vixe… o Rio é vasto em escalada em rocha.

No Sul, tem muita coisa boa também. Corupá é um lugar em Santa Catarina que estou me programando para ir… Parece que é um filé para quem curte escalada esportiva, por suas paredes negativas, extensas, pelo clima, pelas cachoeiras e pela beleza do lugar.  Caxias do Sul oferece a incrível Gruta da Terceira Légua, com vias negativas perfeitas e exigentes. Tive a oportunidade de escalar na Gruta após uma etapa do Brasileiro por lá e adorei.

O Rio Grande do Sul tem ainda Salto Ventoso, em Farroupilha, Campo Escola Behne, Escaladas em Caçapava do Sul, no Itacolomi, todos esses points que não visitei e gostaria de conhecer uma hora!

13)  E para a mulherada que está lendo esta matéria: a escalada ajuda a manter o corpo em forma? Pelo que estamos vendo (risos) nas fotos, ajuda, né?

Olha, sem dúvida ajuda, viu… Pode olhar para qualquer escaladora que se mantenha escalando  com regularidade, que você vai ver um corpo esbelto, barriga seca e sarada, pernas alongadas, braços definidos e costas ligeiramente mais largas. Tudo só escalando e buscando a evolução na parede.

Muitas têm de se cuidar para não ficarem fortes demais, o que acaba até atrapalhando. Não é a tendência para manter a performance também ter um bumbum empinado, pernas musculosas, etc. O corpo mais útil na escalada é  o flexível, leve, com musculatura definida sem exageros.

A escaladora é uma bailarina na vertical, só que é um esporte que não tem o apelo glamoroso do balé (risos), pois invoca força e coragem também.

14)   Você tem alguma inspiração de algum atleta que você admira para lhe dar aquele incentivo na hora de subir a montanha?

Bom, eu me inspiro em diversos escaladores pelo Brasil e pelo mundo. Eu admiro a Lynn Hill, uma escaladora que fez coisas incríveis na rocha, como a primeira escalada em livre no Nose, em Yosemite. Ela competiu nos anos 80 e continua escalando por paixão até hoje. É mãe e mulher também.

15)   É permitido escalar ouvindo música, por exemplo?

Com certeza! Eu já treinei muitas vezes com MP3, principalmente em treinos de volume, de resistência, mas isso é mais indicado para treinos indoor.

16)  O cara tem de ter dedos de aço ou é uma questão de equilíbrio que envolve todo o corpo para fazer uma escalada?

Se ele tiver dedos de aço, força e tensão corporal bem distribuída, repertório de movimentos, flexibilidade, concentração, boa recuperação e resistência, o cara vai longe…

17) Quais os planos para o futuro da Janine?

Continuar escalando pelo Brasil nos feriados e finais de semana, aos poucos conhecendo novas linhas e novos lugares, acompanhar os aprendizados e a educação da minha filha e levá-la comigo para algumas aventuras, trabalhar com dignidade para manter isso,  de preferência envolvida na comunicação de um estilo de vida que eu curto ‒ saudável, sustentável, envolvendo viagens, natureza,  superação e desafios, com respeito às diferenças e recebendo respeito também. Enfim, meu plano é manter minha paz interior envolvendo os itens citados anteriormente, e sabe-se lá mais o que a vida trouxer.

18) Para finalizar: quem não pode fazer esse esporte e qual o recado para as pessoas que querem praticar a escalada esportiva que você poderia dar aqui?

Olha, eu voltei do mundial agora, na Itália, onde pude conferir o 1º Campeonato Mundial de Paraclimbing ‒ cegos, paraplégicos, amputados, com deficiências mentais e físicas. E todos estavam buscando chegar ao fim do desafio proposto utilizando aquilo que eles tinham, satisfeitos por estarem lá usando da melhor forma que podiam o corpo, a mente e a oportunidade. Então, acho que não existem restrições, a não ser na cabeça de cada um.