Luciane Dambacher

Reportagem: Andréa Spalding   //  

Dona de um invejável currículo como atleta de salto em altura, a gaúcha de Novo Hamburgo Luciane Dambacher, 35 anos, graduada em Educação Física e pós-graduada em fisiologia e cinesiologia do exercício, construiu sua história como vencedora no esporte com grande esforço, muitos desafios, imensa dedicação, superação máxima e, é claro, inúmeras vitórias recheadas de alegria e emoção. O começo de sua caminhada ao pódio, lá em 1989, teve total influência de seu irmão mais velho, Paulo André, que já era saltador em distância.

Na época, a atleta estudava na Fundação Evangélica – localizada na própria cidade natal, onde também morava –, que apoiava muito a prática esportiva. A partir daí, o irmão, junto com seus professores de Educação Física Darci Orso e Ana Maria Marcon (atual recordista estadual de salto em altura), abriram o caminho para que Luciane iniciasse os treinos na Sogipa, em 1990. Nas férias de julho daquele ano, a mãe da atleta trouxe-a de Novo Hamburgo para o primeiro treino na Sogipa com Martina K. Lindemayer, sua primeira treinadora. Em 1991, passou para a equipe do técnico José Haroldo Loureiro Gomes, conhecido como Arataca.

“Como principiante, eu fazia várias provas de pentatlo e heptatlo – que é 100 m com barreiras, mais salto em altura, mais arremesso de peso, mais 200 m, mais salto em distância, mais lançamento de dardo e mais 800 m. Isso porque eu ainda era muito nova para me especializar em uma modalidade e não tinha boas marcas”, contou a atleta.

Mas foi em 1994 que Luciane começou a se dedicar ao salto em altura. “Naquele ano tinha meu primeiro grande desafio, o Campeonato Mundial Juvenil, em Portugal. E para que eu pudesse participar, tive de optar pela prova em que eu mais me destacava, justamente o salto em altura, e alcançar o índice, que era de 1,82 m. Treinei muito duro, passava a semana em Porto Alegre, onde treinava, na Sogipa, e só visitava minha família, em Novo Hamburgo, nos finais de semana em que não havia competições. Desde então, não larguei mais essa prova. Comecei a ter bons resultados, me envolver e me destacar em campeonatos nacionais e internacionais de várias categorias.”

Desafios e abdicação – No início, Luciane teve de abdicar de muitas coisas em sua vida e enfrentar enormes desafios, mas ela não titubeou em avisar de cara, quando a Sul Sports fez a pergunta, que não se arrependia nem um pouco disso, e que faria tudo novamente. “Tive de trocar de escola, pois o colégio em que eu iniciei com o atletismo tinha dois turnos de aula, duas vezes por semana. Isso acabava atrapalhando minha dedicação nos treinos. Como eu morava em Novo Hamburgo, bem no início vinha para Porto Alegre três vezes por semana, de ônibus, para treinar, e caminhava um monte até chegar à Sogipa. Mais tarde, quando decidi ser atleta de verdade, passei a ficar durante a semana na capital gaúcha. Morava em alojamento ou na casa de colegas de treinos. Depois, fiquei por dois anos na casa dos meus primeiros treinadores, a Martina e o Arataca, que hoje são meus compadres.”

As amigas a convidavam para ir a festas, como fazem todos os jovens, e isso para ela era impossível. Sempre tinha treino ou estava em época de competição. “Natal, aniversário e outras comemorações… muitas vezes passei longe da família e sozinha, pois estava viajando. Ficar curtindo praia no verão, nem pensar! Treinar era prioridade para mim. Sempre fui muito determinada e sabia que precisava me dedicar totalmente para alcançar meus objetivos. Nunca fui uma atleta com qualidades físicas perfeitas para minha modalidade, então precisava treinar mais que minhas adversárias, caso eu quisesse chegar a algum lugar!”

Rotina de treinos – Um duro dia a dia de treinamentos esperava Luciane a cada amanhecer. Eram seis vezes por semana, pelo menos três vezes em dois turnos. Na pista, exercitava técnica, velocidade, resistência, coordenação e força – muita força, enfatiza a atleta –, para aguentar sequências de treinos muito fortes (por exemplo, 300 saltos gerais, 35 saltos técnicos e 190 kg nas costas). Como você, leitor, pode perceber, não tinha moleza. Luciane pegava pesado mesmo. “Muitas vezes num sol de 40 graus ou debaixo de muita chuva…”

Tinha também uma equipe multidisciplinar, com psiquiatra, médico, fisioterapeutas, nutricionista, biomecânico, massagista, acupunturista, dois treinadores (Leonardo Ribas e Arataca) e um colega de treino, também saltador e recordista brasileiro (Fabrício Romero), que treinou com Luciane por 15 anos. “O atletismo é um esporte muito solitário, mas, durante os treinos, temos de ser muito solidários para suportar toda a pressão… parceria e cumplicidade são essenciais! Tinha de ter dedicação total. E eu vivia atletismo, salto em altura, tudo pensando em meus objetivos. Afinal, esse era o meu trabalho, e meu corpo, a ferramenta, o meio para alcançar tais metas. Acho que tudo valeu à pena!”, disse, emocionada.

Treinadores – Luciane foi treinada por Arataca, por 18 anos, juntamente com o Leonardo Rossato Ribas, o Léo (hoje marido da atleta). Depois de oito anos de trabalho, Arataca assumiu outras funções na Sogipa, onde eram realizados os treinos, e foi aí que o Léo entrou – primeiro como auxiliar técnico e, em seguida, como treinador, auxiliado pelo Arataca. Léo é graduado em Educação Física, com especializações em fisiologia do exercício e atletismo em Mainz, na Alemanha, entre outros tantos cursos. Desde 1990 é treinador de atletismo da Sogipa, e atualmente trabalha somente com provas de corrida. De 2005 até os dias atuais, o profissional também é treinador do grupo de corrida PerCorrer.

Já o cearense Arataca – formado em Educação Física em Mainz, na Alemanha, com especializações na Rússia, na Bulgária, na Alemanha, na Romênia, em Cuba, na Espanha, na Ucrânia, na Argentina e nos Estados Unidos –, morador de Porto Alegre, que hoje trabalha como treinador chefe da equipe de atletismo da Sogipa e exerce também a função de diretor técnico da CBAt (Confederação Brasileira de Atletismo), trabalhou com Luciane no alto rendimento por mais de uma década. Na conversa que teve com a equipe da Sul Sports, ele afirma muito convincentemente e com enorme orgulho que todos os resultados da atleta, suas conquistas e seus êxitos foram frutos de um forte caráter e de uma conduta e um comportamento exemplares em sua vida pessoal e atlética. “De uma capacidade de renúncia e comprometimento incomum em função de seus treinos e competição, Luciane, durante esse período, foi muito coração, substância e espírito. Foi ainda força e harmonia, tudo para alcançar o ideal de superação pessoal à base de uma sólida moral. Para superar seus limites e exorbitar suas potencialidades, Luciane foi algo mais, foi alma!”, enfatizou Arataca, finalizando com um recado para Luciane: “Um beijão no coração, do treinador e amigo Arataca”.

Duplo papel – Quando Léo começou a trabalhar com Luciane, em 1999, eles já estavam namorando há quatro anos. “Muitos falavam que eu era um sortudo, pois era o único homem que conseguia mandar na mulher em determinados momentos do dia”, comenta Léo, em meio a risos.

O técnico conta que o casal sempre conseguiu separar bem o profissional e o pessoal/afetivo. “A nossa relação, em alguns momentos, facilitava a vida, pois fora das pistas acabávamos conversando muito sobre o treino, sobre o que poderia ser melhorado. No entanto, em alguns momentos do treinamento, eu tinha de ter um pouco mais de jeito, mais cuidado com as palavras e com as cobranças, pois poderia interferir na nossa relação fora da pista. No entanto, como a Luciane sempre foi muito profissional e responsável no que faz, tirávamos tudo de letra”, ressalta ele, orgulhoso de sua atleta e esposa!

“Na verdade, o Léo era, além de treinador, atleta, corredor de 3.000 m com obstáculos. Então viajávamos muito juntos, para competir, e com isso um acabava ajudando ao outro… Mas foi em 1994 que nossa relação passou de colegas de treino para namorados, mais especificamente em uma viagem para o Chile, quando ficamos juntos pela primeira vez, e desde então seguimos muito felizes e apaixonados”, fala Luciane. Sem medo algum de errar, ela declara que a relação do casal é fantástica, de cumplicidade e de muito amor. “Ele sempre soube me entender muito bem e me ajudou em tudo o que eu precisava”, diz ela.

Características físicas – Durante a entrevista, Luciane comentou várias vezes que não possuía qualidades físicas ideais para ser saltadora, por isso tinha de treinar bem mais que suas adversárias. Diante dessa declaração, não poderíamos deixar de perguntar a ela que tipo de características físicas tem de ter quem quer ser saltador. “Tem de ser alto (em especial, ter o centro de gravidade elevado) e magro, mas ao mesmo tempo muito forte. Sabe que o interessante é que, se comparada com saltadoras internacionais, eu, por exemplo, era baixinha e meio gordinha. Sempre lutei muito com o peso, regulava muito minha alimentação, vivia em dieta… abria mão de doces (que, por gostar tanto, eram meus prêmios em competições nas quais eu conquistava bons resultados). Porém, eu tinha algo que considero muito importante para se alcançar objetivos e ter bons resultados: não é uma valência ou qualidade física, e sim garra, determinação e amor pelo que eu fazia!”, afirmou a atleta, entusiasmada, conversando com a equipe da Sul Sports.

Significado – Na hora de contar o que o salto em altura representou em sua vida, Luciane deixou a emoção falar: “Foi uma escolha que me possibilitou muitas oportunidades: de ser feliz, de provar emoções inigualáveis e únicas.  Me deu as oportunidades de estudo, de conhecimento, de muitas viagens, de aprender sobre diferentes culturas, de conhecer pessoas, de trocar experiências… Com o esporte vivi alguns tipos de emoções que raramente conseguiria vivenciar novamente. Algo realmente especial!”.

A atleta diz que considera ter tido uma trajetória muito legal. Só lamenta ter faltado alcançar um degrau: “Gostaria muito de ter participado de uma Olimpíada. Infelizmente, em duas oportunidades, 2000 e 2004, esse sonho foi interrompido por duas lesões (fratura da vértebra L4 e ruptura total de tendão de Aquiles, respectivamente). Foram dois marcos importantes na minha carreira, com os quais aprendi e cresci muito como atleta e como pessoa; mas, infelizmente, esses problemas me impediram de alcançar esse sonho olímpico!”, afirma, com pesar, ao falar no assunto.

Luciane encerrou a carreira em 2008, no Campeonato Estadual Adulto. “Minha despedida foi numa cerimônia muito emocionante, em meio a sorrisos, choros e palmas, momento que lembro como se fosse hoje.”

Atualmente, essa campeã de mão cheia é empresária e treinadora do grupo de corrida PerCorrer. É também preparadora física de diversos jogadores amadores de futebol, além de responsável pela área de avaliação física do Centro Médico Sogipa e personal trainer.

Recado final – Para quem quer ser atleta, ela deixa aqui a seguinte dica: “Diria que tem de treinar muito, mas muito mesmo, sempre um pouquinho mais do que parece necessário, com toda a dedicação, e fazer o que gosta com muito amor… acho que essa é a receita para o sucesso!”.

“Tem uma frase de que gosto muito, e deixo aqui: ‘Sonhar, apesar das ilusões. Caminhar, apesar dos obstáculos. Lutar, apesar das barreiras, e acreditar, acima de tudo’” (Miguel de Cervantes).

Momentos especiais:

1999 – Jogos Pan-Americanos – Winnipeg (Canadá) – “Fiz o índice para participar dos jogos, mas sem muita pretensão e muito menos sem ser favorita. Cheguei lá e fui medalha de prata! Na hora não tinha ideia do que isso significava para um atleta. Mas logo senti quando, ao chegar ao aeroporto de Porto Alegre, fui tratada como uma campeã. Nem minha mala precisei pegar, tinha banda me esperando no saguão… foi muito emocionante! Na verdade, essa foi a minha maior conquista, uma prata que vale ouro!”

2000 – Ano olímpico (lesão) – “Após muitos meses treinando com dores nas costas – e sem um diagnóstico correto –, em uma turnê pela Europa, cheguei no meu limite… não consegui mais levantar da cadeira sozinha. No dia seguinte, arrumei as malas e voltei direto para o Hospital em Porto Alegre. Diagnóstico: fratura nos pedículos de L4. Fiquei oito meses parada.”

2001 – Volta por cima – “Depois de um ano me recuperando, voltei e fiz minha melhor marca: 1,88 m. Fui campeã brasileira e sul-americana e ainda  conquistei vaga para os Jogos Mundiais Universitários, na China.”

2003 – Jogos Pan-Americanos – Santo Domingo (República Dominicana) – “Cheguei muito bem preparada para essa competição. Mas, já no aquecimento, senti uma forte dor no meu tendão de Aquiles esquerdo, como se tivesse levado uma pedrada. Parei imediatamente e aguardei a prova iniciar. Não consegui um bom resultado e, de quebra, arranjei uma lesão que me custaria a carreira.”

2004 – Ano olímpico – lesão – “De agosto de 2003 até março de 2004, treinei com muita dor. Foi um período árduo, pois não queria desistir das Olimpíadas. Porém, no dia 29 de março, em um treino preparatório para a primeira competição importante do ano, eu rompi totalmente o tendão de Aquiles. Fim de mais um sonho olímpico. Doeu muito, não só a lesão, mas principalmente o coração. Eu sabia que seria muito difícil retornar de uma lesão desse nível. Mas eu não desisti. Me recuperei, treinei, e em 2007 tentei vaga para os Jogos Pan-Americanos no Rio de Janeiro (Brasil), mas não consegui… foi então que vi que minha carreira de atleta chegava ao fim.”

2008 – “Encerrei minha carreira oficialmente…”