10 de novembro de 2013

Pérola de Souza

Esporte: Surf

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A PLENITUDE DE SER, ESTAR E SURFAR
Pérola de Souza, a pioneira no bodyboard paranaense

Por Rafaella Malucelli

Paixão e busca de momentos de plenitude. É dessa forma que há 15 anos Pérola de Souza leva a carreira de atleta e levanta a bandeira do bodyboard paranaense. Sem a pretensão de apenas competir para ganhar, ela vai mais além: seu objetivo é superar a si mesma. E é isso que ela vem mostrando ao longo da carreira. Com ensinamentos da yoga, encontrou o equilíbrio para nunca desistir.

Ativista do esporte, Pérola foi a primeira atleta paranaense a se profissionalizar na prática. E sua atividade desde o começo não se limitou às competições. Ela foi incentivadora e sócia fundadora de associações e federações e ajudou na realização de eventos no estado, assim como cuidou do interesse de outros atletas. Fez um jornal de bodyboarding, o Bodyboard Vibration, um tabloide que rodou trimestralmente com 5.000 exemplares pelo Paraná, durante cinco anos, para ajudar a divulgar a atividade. Tudo isso com a visão de ter espaços para o desenvolvimento do esporte local. “Eu já sentia que a maior dificuldade de conseguir recursos era a falta de divulgação da modalidade. É um problema que vem até hoje, mas que foi transcendido com a força de várias gerações de atletas e dirigentes que continuam lutando”, explica ela, que é bicampeã paranaense, tricampeã catarinense, sétima colocada no latino-americano e 13ª no mundial do Chile de 2013.

Mas tudo começou de uma grande confusão. Apesar de sempre amar o mar, antes de conhecer o bodyboard seu lance era na terra, e motorizado. “Eu sempre fui louca por corridas de jipes, ralis e velocidade, e adoro isso até hoje. Fiquei sabendo que ia ter uma competição de Morey boogie (que era a marca das pranchas de bodyboarding na época), na praia ao lado (Grajaú) onde passava o verão desde a infância, no Balneário de Ipanema. Eu fui achando que eram “boogies” de corrida… quando eu vi que eram pranchas, ri muito, e logo em seguida me apaixonei pelas pranchinhas – sempre fui louca por mar e já surfava com pranchas de isopor. Poder surfar sem assar a barriga era um sonho, e ainda com pés de pato, era perfeito!”, conta.

E foi com o equipamento da prima o primeiro contato oficial, que virou uma paixão para a vida toda. No começo era mais durante o verão que Pérola surfava, pois morava em Curitiba. Depois abraçou o esporte e se mudou para o litoral e buscou a profissionalização, pois com isso veio a busca por patrocínio para pode viajar e competir. “Eu não tinha nível de profissional. Mas se não me profissionalizasse, não ia ter quem acreditasse em mim. Não só eu, mas vários atletas da categoria masculina que também desejavam o crescimento do esporte se profissionalizaram na época – o lendário Christian Name, Daniel Camargo, entre outros que vieram um pouco depois, como o heptacampeão paranaense Sanderson Trevisan. Logo em seguida, Gutta Borges, Suzane de Oliveira e Tati Dallegrave se profissionalizaram, e fomos ao mundial.”

Com o tempo, a carreira de bodyboarder profissional teve que ser dividida entre o esporte, a faculdade, o trabalho e os filhos, que ela sempre coloca em primeiro lugar. E assim, de uma filosofia seguida pela família de Pérola, a yoga entrou também com tudo na vida da atleta. “Minha mãe pratica há mais de 20 anos, e fui fazer algumas aulas com ela. Fui embora para Florianópolis e, no centro de treinamento da Mormaii, tive a oportunidade de praticar com o professor Marcos Schutz, que foi minha grande inspiração e que fez com que eu vivesse a yoga no meu dia a dia. Quando voltei a morar em Curitiba, com filhos pequenos, achei que não poderia voltar a competir tão cedo, e procurei esse exercício para achar uma motivação na minha vida. Eu estava me sentindo perdida, e como a atividade me fazia bem, decidi estudar mais para entender, e acabou sendo minha profissão”. Pérola tem o Espaço Yoga Ashram, onde dá aulas e consultas de yogaterapia.

Com o equilíbrio, Pérola segue sem previsão de largar o esporte muito cedo. “Aonde vou chegar ainda, só minha coluna sabe (risos). Já pensei em me aposentar várias vezes. Mas aí a minha cota de patrocínio de lei de incentivo é aprovada, e eu vou continuando. Faz mais de 15 anos que eu pratico yoga, e por isso não tenho muitas lesões. Meu fôlego é muito bom, e mesmo sentindo que meu corpo está mudando, eu sinto que evoluo sempre mais.”

E foi isso que ela mostrou na viagem que fez no começo de junho deste ano ao Chile, quando participou do El Gringo Latino Americano e do Slan Mundial de Bodyboarding, em Antofagasta. Lá superou a si mesma e teve uma das melhores recompensas como atleta. “Vi os meus ídolos me aplaudirem quando eu venci uma bateria importante do tour mundial. Foi uma delícia sair do mar e ver os meus mestres e ídolos me olhando e vibrando comigo, numa comemoração muito legal. Tive uma sensação de missão cumprida gostosa… uma sensação de autossuperação sensacional por estar competindo bem numa situação tão extrema, tão perigosa, nas ondas de La Cúpula, a onda mais perigosa do Antofagasta, no Chile.”

 

Rápidas com Pérola:

- Qual foi a trip que mais significou pra você?

Cada viagem tem um significado especial, porque cada lugar sempre tem uma mensagem para nos passar. Os maiores troféus da minha carreira são as amizades realizadas e as energias peculiares de cada lugar. Mas a do Chile foi a mais marcante por conta dos extremos. Ondas grandes em bancadas rasas de pedras, o medo de terremotos e maremotos, isso tudo mexeu com minha visão de vida. Fomos as primeiras mulheres a competir em El Gringo, no Chile, uma das ondas mais perigosas do mundo. Quando a competição passou e eu tinha conseguido surfar, percebi o quanto eu era forte e corajosa, mais do que achava que era. Acho que voltei mais destemida para a vida!

- E quando parar de competir?

Quando me aposentar, quero ser locutora nos campeonatos e quero ajudar ainda mais o esporte a crescer no meu estado. Tenho o sonho de ver o nosso Centro de Treinamento de Bodyboarding, o CTB de Ipanema, mais estruturado. E continuar com o boletim das ondas, que eu faço diariamente para o site do Momentum Surf (amo esse trabalho!).

- Vários esportes e atletas encontram dificuldades no Brasil. Como você procura enfrentá-los?

É frustrante, e por incrível que pareça, ainda escuto gente dizendo que surfe ou até mesmo o esporte é coisa de vagabundo. Eu nunca pude ser 100% atleta, porque pedir patrocínio, no nosso país, é a mesma coisa que mendigar. O mundo todo precisa abrir mais a mente para isso. Acho que só a campeã do mundo consegue viver do esporte e para o esporte. As vezes em que competi foram sempre uma luta grande. Vendi tudo o que podia para ir, fazia festas com minhas amigas para arrecadar o dinheiro da passagem e ia cheia de biquínis para vender para as japonesas, que adoravam as peças brasileiras. Sempre competi com o dinheiro contado. Nos últimos anos, pude pelo menos competir os campeonatos no Brasil com os patrocínios que tenho hoje. Nunca consegui competir um tour inteiro do mundial, por falta de patrocínio.

- Quem mais a apoia?

Minha mãe, em primeiro lugar. A Lei de Incentivo ao Esporte da SMELJ (Secretaria Municipal de Esportes, Lazer e Juventude de Curitiba) me patrocina há mais de cinco anos. Também tenho apoio da Momentum Surf Brasil e da Kpaloa.

- O que no bodyboard a faz seguir em frente?

A plenitude. Plenitude para mim é um estado de presença, que, independentemente de ser bom ou ruim, é inteiro, único, real e intenso. Os traumas somem, e o medo do futuro desaparece quando você está numa onda. As competições me dão oportunidade de sentir essa plenitude em outros mares. Eu amo surfar. Não é o que eu sei fazer de melhor na minha vida, mas eu faço com muito amor e prazer. Não é aonde quero chegar, é onde eu quero estar… Simples assim.