Pressão na competição: uma questão de interpretação

Muitos competidores percebem diferenças em suas performances quando treinam e quando competem. Reclamam que na hora do “está valendo” não conseguem render como nos treinamentos ou em partidas em que o resultado não importa tanto. Se pensarmos que o jogo é o mesmo em ambos os casos, as regras, a contagem… O que muda? Muda a forma como a situação é interpretada pelo atleta. No momento em que você percebe a situação como estressante, você se sente ameaçado e se impõe uma pressão que prejudica todo o desempenho. É importante entender o caminho que essa interpretação percorre para que você possa interceder a seu favor nas próximas ocasiões.

Desde os tempos das cavernas, nosso corpo responde da mesma forma diante de uma ameaça (diante de um predador, de uma caça ou inimigo). Fisiologicamente, uma série de efeitos bioquímicos se instala preparando o corpo para uma reação de luta ou de fuga. Assim, o corpo responde ao sinal de alerta com batimentos cardíacos acelerados, respiração mais rápida, pressão sanguínea aumentada, músculos mais tensos, entre outros. Esse estado de mobilização é automático e, muitas vezes, nem é percebido conscientemente pela pessoa. Portanto, se você interpretar a partida como uma ameaça, seu corpo começará a reagir a essa percepção e, como já tratamos inúmeras vezes nessa coluna, a relação mente e corpo é indiscutível! Se o corpo não está no seu estado ideal, sua performance começa se deteriorar e a mente começa a reagir também. Você passa a perceber os erros, a perder o foco de atenção, a ter dúvidas para tomar decisões e assim por diante. Quando se dá conta, já está tomado de dúvidas, com a confiança abalada e sentindo a pressão ao máximo.

Para definir um ponto, decidir a melhor jogada ou dar o sprint final, você não precisa estar com a adrenalina “bombando”, mas ao contrário, precisa estar calmo, relaxado, positivo e sentindo-se no controle. Justamente o oposto do estado de alarme. E é praticamente impossível manter-se sob controle após o alarme ser acionado. Portanto, controlar o alarme, os sinais internos, é o início para modificar a percepção dos eventos externos. Para isto, existem algumas técnicas da Psicologia do Esporte que podem ajudar.

Conhecendo o caminho inicial (percepção da ameaça -> reações fisiológicas -> deterioração no desempenho), vamos entender melhor como isso se processa na mente? A interpretação da ameaça produz uma série de pensamentos que minam a confiança e aumentam a pressão. Por exemplo: “Minha carreira está em jogo!”; “E se eu estragar tudo agora? Nunca mais terei a chance!”; “O que devem estar pensando de mim?”. Esses são pensamentos que produzem pressão e acionam a espiral negativa de deterioração na performance.

Lembrando: uma das formas de tentar bloquear ou modificar os pensamentos (e os consequentes estados emocionais negativos) é alterar o conteúdo do autodiálogo. Chamamos essa técnica de monólogo interno. Durante a prática esportiva, a maioria dos pensamentos é automática. Com o monólogo, busca-se organizar os pensamentos, comentar ou instruir-se de forma mais positiva.

Competidores mentalmente fortes manejam bem a pressão porque se tornam pensadores disciplinados. Eles passam a reconhecer a relação entre o que eles pensam e o quanto de pressão experenciam durante a atuação. Utilizam-se do monólogo positivo para estancar os sinais de alarme e retomar o controle sobre seu corpo e mente. Alguns exemplos de pensamentos que reduzem a pressão: “Eu simplesmente vou focar em fazer o meu melhor e deixa o jogo rolar”; “Pressão é algo que eu mesmo me coloco.”; “Mesmo que eu não esteja no meu melhor dia, não é o fim do mundo”.

A forma como você interpreta a situação é fundamental para você percebê-la como uma ameaça ou como um desafio. E, se a questão dor de interpretação, ela está sob seu controle! Quanto mais cedo você aceitar que a pressão vem de dentro e não de fora, mais cedo você pode começar a desligá-la.