6 de novembro de 2013

Atacama

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ATACAMA POR CRIS BERGER

Sincronia

I can see cleary now the pain is gone. Deixamos San Pedro de Atacama numa manhã de sol – depois de um cara a cara, no dia anterior, com o temido viento blanco – o rádio sintonizado em uma estação local tocou uma seleção primorosa e entre elas Sunshine day que nos fez aumentar o volume e celebrar la vida!

Cheque mate!

Setembro de 2004 – chego no deserto mais árido do mundo pela primeira vez. Haveriam muitos retornos. Mudanças vinham pela frente. Uma delas começou com um novo amor que levaria oito meses para acontecer. Março de 2005 – uma guinada de 180 graus me levou de volta à San Pedro. Eu tinha dois propósitos: subir o vulcão Licancabur e cumprir meu destino. Fiz os dois. Durante cinco meses voltei ao povoado – não mais como jornalista, ele passara a ser minha casa por alguns dias a cada mês. Um dia o para sempre chegou ao fim. A vida seguiu, anos passaram. Regressei. O mundo havia dado mais algumas voltas e agora o deserto me colocava em cheque mate. O momento era de profunda reflexão e desafio. Me entreguei.

Dia 1 – Valle de la Luna + Caracoles + Adobe!

Éramos oito jornalistas. Partimos pela manhã para desbravar o Valle de la Luna. Não pense que uma vez será o suficiente para conhecê-lo. Mas aceite de bom grado um pedacinho. Os olhos começam então a degustar o deserto, suas cores, formatos e silêncio. Caminhamos por formações feitas de sal há milhares de anos, entramos em cavernas, admiramos os cristais de sal, subimos dunas, nos deixamos seduzir.

A tarde a programação era ir ao Salar do Atacama. Me atrasei dez minutos, eu e a Marina fomos deixadas para trás. Primeiro momento: incredulidade. Segundo: reação. Sacudimos, literalmente, a poeira e fomos para a piscina curtir a vida e olhar o Licancabur no horizonte. Final de tarde levei a Ma para conhecer a rua Caracoles, a principal, com chão batido, casas de adobe que abrigam restaurantes, bares, lojinhas de artesanato, agências de turismo e casas de cambio. Depois de percorrê-la fomos jantar no Adobe – meu bar-restaurante preferido, pedimos uma pizza de pera e camembert e risoto de quinoa (espetaculares), atendimento nota dez, ambiente descolado ao ar livre e uma fogueira no centro. Voltamos caminhando em uma noite escura com um céu cravejado de estrelas. Me emocionei.

Dia 2 – Lagunas Altiplânicas e Explora

A proposta era ir às Lagunas Altiplânicas. Já pelo caminho a paisagem surpreende. Cada lugar por onde eu passava já havia estado e uma lembrança vinha a tona. Nas lagunas eu estive no meu aniversário em 2005, lembro que fomos no entardecer, levamos uma garrafa de vinho, alguns petiscos e ficamos apreciando a paisagem. Na volta um céu espetacular me presenteou com fotos lindíssimas do pôr do sol.

De volta a 2009 – chegamos na primeira parada e escapei da van. Precisava caminhar. Mal imaginava o que vinha pela frente. Apesar do frio intenso provocado pelos quatro mil metros segui a travessia em busca da minha redenção. Coloquei o ipod no ouvido, câmera de fotos em punho, os olhos quase incrédulos diante de tanta beleza registrando o azul turquesa das lagunas Miscanti e Miñique. No fundo os Andes completavam o quadro. Logo fiquei só. Uma emoção profunda me invadiu e comecei a chorar intensamente. Era um acerto de contas com o destino, com as coisas que não temos o poder de controlar. Foi quando comecei a entender sobre sincronia. Nada acontece por acaso. Tudo, absolutamente tudo tem um motivo para ser e acontecer.

Naquele dia eu pude sentir a intensidade de uma terra selvagem onde o cenário não nos é comum, em que a natureza domina o show e lá pelas tantas nos cutuca, faz pensar e apresenta uma perspectiva nova sobre a vida. Entendi a dimensão dos meus sentimentos. O deserto estava me levando à uma jornada pessoal.

A noite tivemos um presente, fomos jantar no hotel Explora (que sou super fã!) e conhecemos o observatório onde vimos Saturno, a luminosidade do céu atacamenho é fabulosa. O jantar estava delicioso e regado a muitos piscos sauers. E a sincronia ditava novos caminhos.

Dia 3 – Geiseres del Tatio

Fomos para os geiseres ver este lindo efeito da natureza promovido pelos vulcões da Cordilheira que projetam jatos d’àgua e fumaça até cinco metros de altitude. Saímos do Tiera Atacama às cinco da madrugada e chegamos para ver as fumarelas um pouco antes do sol nascer. O frio era intenso. Passei a tarde editando fotos e me concentrando para a subida ao cerro Toco no dia seguinte. Me esperava uma caminhada íngreme de 600 metros montanha acima partindo dos cinco mil metros de altitude.

Dia 4 – Toco e Guatin

Despertei antes mesmo do despertador tocar. Eu sentia que podia subir uma montanha. Foi o que fiz. Quase. O dia amanheceu com sol e tudo parecia ok para a grande aventura. Éramos uma equipe de seis pessoas contando a guia e o motorista. A medida que nos aproximamos do Toco o céu começou a fechar, rajadas de vento sacudiam a van, eu ria e me divertia com o desafio. Chegamos aos cinco mil e começamos a nos preparar para a subida. Trajar toda a proteção possível em termos de roupas inteligentes – é fundamental que a indumentária seja constituída de uma blusa térmica, um colete e casaco de polar e outro corta vento.

Comecei antes do grupo e mantive o ritmo até chegar aos 5.300. As condições climáticas eram radicais. Rajadas de vento de até 100 quilômetros por hora nos sacudiam e tínhamos que nos segurar com os bastões para não cair. Volta e meia eu olhava para baixo e espiava o rendimento dos meus companheiros. Vi um parar, outro sentar e percebi que a altitude começava a judiar. A temperatura estava negativa, imaginamos uns 15 graus abaixo de zero. Já não sentia minhas mãos. Elas doíam. As duas luvas não venciam o frio, mas eu nunca desisto, apenas ignorei a dor e me concentrei. Já subi o Toco duas vezes e ambas foram relativamente fáceis. Depois do Licancabur, uma montanha de 5.916 metros de altitude, que subi em março de 2005 me sentia confiante. Conhecia meus limites e capacidade.

As rajadas aumentaram. Vi minha guia, Pamela se aproximar, sabia que ela me diria que teríamos que voltar. Um vento forte entra e quase a derruba – Cris, desculpe, não poderemos subir, está entrando o Viento Blanco. Olho para cima e já não vejo o topo do Toco. A abraço e logo mais ao Décio Galina que como eu sonhava em completar a odisséia. Havíamos passado a semana falando nisso. Mas ok Pacha Mama (mãe Terra no idioma atacamenho) nos disse não. Aceitei. Exerci a paciência e submissão.

Nos abraçamos, nos felicitamos por termos tentado, chegamos até a metade, não nos deixamos assustar com o vento que soprava implacável, nem com o frio que congelava. Estávamos lá, corajosos e confiantes. Me dei conta de quanto é a montanha que nos escolhe e que nasci para subí-las. Desci rápido para que o calor adquirido com a caminhada não desaparecesse. O frio era radical. Esperei meus companheiros, os fotografei, abracei e comecei a chorar. Montanhas são mágicas, fortes e tocam fundo na alma. No ipod começa a tocar Yellow, do Cold Play … Seria sincronia? E as lágrimas escorriam sem controle.

Uma manhã havia passado. Almoçamos no Tiera. Saímos para segunda parte do dia. O Explora nos concedeu gentilmente uma excursão por Guatin Punta del Inca já que tínhamos a tarde livre, sem atividades. E quem disse que eu quero o ócio? Eu e Marina fomos guiadas por Cezar por dentro de um canhão feito de pedras e coberto por cactos de até oito metros de altura. A caminhada se deu entre trechos mais complicados que exigia destreza, outros leves. Me lembrei de quando em 2005 eu tinha receio destas trilhas e de como agora eu estava confiante. Na verdade eu aprendera o sabor da aventura.

Deixamos o canhão e subimos até uma planice, a visão ganhou dimensões que levaram os olhos aos vulcões, a Licancho (apelido de Licancabur), ao horizonte largo, distante e encantador. Marina e eu caminhávamos dando risadas, como crianças, tirando fotos e emocionadas com a vida. Quando chegamos ventava tanto que tivemos que esperar para sair da van, agora o tempo parecia ter se acalmado, o sol esquentava, acariciava nosso rosto e num momento de maior emoção, ela se vira e diz: Cris, vamos fazer um pacto, voltaremos a este lugar daqui cinco anos, no dia 29 de maio de 2014. Pacto feito. Olhamos para Licancho e fizemos nosso juramento diante da grande montanha. Eu que estava ali aprendendo a esperar e acreditando na sincronia imaginei as surpresas que os próximos anos tinham para mim. Quantas voltas este mundo daria e o que estaria escrito? Uma coisa eu sabia: nada mais sagrado do que o amor. Aceitei.

Tiera Atacama X Explora

Sou fã número um do Explora que tem hotéis na Patagônia e Ilha de Páscoa além do Atacama. Eles têm o conceito de levar o passageiro a experimentar e não apenas observar os lugares. Os passeios são diferenciados, por lugares onde ninguém vai, em longas e deliciosas caminhadas, bicicletadas ou cavalgadas. É pioneiro no conceito aventura com luxo. Adoro os piqueniques super chiques que fazem no meio do nada. Ponto forte: as excursões e as piscinas com jacuzzi e sauna.

O Tiera Atacama que tem menos de dois anos em San Pedro surpreende pela beleza da arquitetura e decoração. Ponto forte: o chuveiro ao ar livre e o terraço com sofá (grande) e visão para as estrelas (perfeito para namorar embaixo de um edredon). Vale para ir curtir um romance, os quartos são super aconchegantes. Se o caso é de excursões pra valer, vá de Explora.

Serviço:

Quem leva: Maktour – www.maktour.com.br

Quem voa: Lan – www.lan.com

Onde ficar: Hotel Explora – www.explora.com / Hotel Atacama – www.tierraatacama.com