6 de novembro de 2013

NY by Cris Berger

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69 EXPERIÊNCIAS EM NOVA YORK BY CRIS BERGER

1 Deixe o vento bater. Se fluir, vá em frente

Fluir é um verbo mágico para mim. Fluiu, me atiro. Travou, olho com atenção. Foi assim, levando o fluir em consideração, que marquei minha viagem de 16 dias para Nova York. Tomei a decisão no dia 15 de novembro. Lembro bem, era feriado no Brasil, eu estava escrevendo o pocket book 69 Horas em Punta del Este. Começo de verão, sol brilhando lá fora e eu imersa a escrever. Peguei o telefone para marcar uma passagem usando pontos de um plano de milhagem. Laércio atendeu. Brinquei com ele sobre o fato de estarmos trabalhando enquanto o resto do país aparentemente descansava e pedi um milagre: uma passagem para NYC a partir da segunda metade de dezembro. Eu e a torcida do Flamengo queríamos a mesma coisa. Mas não é que ele conseguiu? “Cris, acabo de encontrar um lugar no dia 17, há meses não vejo abrir uma disponibilidade”. Comemoramos! Fluiu, virou mágica.

8   Aberta a temporada de compras

 Como cheguei cedinho a NY, achei que seria adequado abrir minha temporada com uma corridinha no Central Park. Para isso, era necessário comprar roupas de corrida. Uma amiga havia me indicado a loja Lululemon. Dei um Google e descobri que havia uma perto do meu hotel. Mapa na mão, instruções dadas pelo concierge, fui estrear meu cartão de crédito na Big Apple. A loja é uma gracinha. De um lado estão modelos para praticar yoga, do outro para correr. Como fazia frio para valer, tratei de comprar roupas que me agasalhassem e deixassem a corrida prazerosa. Comigo a moda é ficar confortável e bem quentinha. Gastei 340 dólares em duas calças, um casaquinho dry fit, um par de luvas, um protetor de orelhas e um par de meias. Nestas horas fico pensando: quem disse que NY é barata? Ok, foi caro, mas sabe aquela compra que vale a pena? Os modelos são lindos e a qualidade é ótima. Como diz o slogan dos supermercados Zaffari de Porto Alegre: Economizar é comprar bem.

11 Aos corredores: o Central Park

Da porta do meu hotel comecei o treino. Fazia muito frio. No encontro da 76 com a Quinta Avenida, encana um vento que parece que vai derrubar você! Entrei no parque e resolvi seguir o caminho tradicional dos demais corredores. Não tinha certeza da distância de uma volta completa. Encontrei uma placa e pedi ajuda para um senhor que me auxiliou a converter milhas para quilômetros. Um pouco mais de 10. Achei que poderia encarar. Ele me desejou boa sorte e segui meu treino. No começo, o frio era intenso. Passados 20 minutos, o corpo aqueceu e se manteve estável. Ah… me senti uma cidadã do mundo quando avistei o museu Metropolitan e, depois, o Guggenheim. Que cenário! Eu estava bem de vizinhança! Fui dando a volta, olhei meu relógio: estava correndo há quase uma hora. Me sentia bem. Na verdade, estava feliz, radiante, a endorfina fazendo efeito e o frio me impulsionando ainda mais. Fiz porta a porta em 1h15. Eu havia completado o parque, o Central Park!

21   Expectativa não entra na mala

Em março de 2010, atravessei a Brooklyn Bridge em um lindo entardecer. Nada mais natural eu desejar cruzá-la correndo. Peguei o metrô e desci na última estação da linha verde. Engraçado como são as projeções. Nem tudo foi mágico. O dia estava bem mais quente do que esperava. Em minutos, me vi toda atrapalhada, tirando meu casaco e amarrando na cintura, guardando as luvas e fazendo meu protetor de orelhas de tiara. Parecia haver um número excessivo de turistas na ponte. Eu desviava deles e das bicicletas que passavam a mil por hora. Uma grande área em reforma estava tapada, impedindo a vista. “Para tudo, corta e grava de novo”, esta era a frase que eu tinha vontade de dizer. Aquele momento deveria ser ‘Kodak’. Comecei a rir. Gerei expectativa. Já era. Minha corrida não foi aquela ‘Brastemp’. Quem sabe eu deveria ter pensado: vamos ver se, hoje, correr na Brooklyn vai ser bacana. Tornar a dúvida minha aliada. Não ter tantas expectativas talvez seja mais seguro.

22   Jazz e relax

Próxima atividade do dia? Prática de relaxamento usando o Método DeRose. O que mais eu poderia desejar? Rua Thompson, número 105 era meu destino final. Eu não tinha ido ao SoHo ainda e foi uma delícia passar pelo Balthazar e pelo Boqueria, restaurantes que estão no meu pocket 69 horas em Nova York. Não sou a única brasileira no pedaço. Le e Zé, direto do Rio de Janeiro, também estão lá para uma aulinha. Batemos um papo rápido, ficamos amigos em segundos e fomos praticar. Para minha total surpresa, na vitrola tocava jazz! Aquilo parecia o céu. De uma corrida, nem tão espetacular assim, para um momento de relax com meu estilo musical preferido. Estava em NY entre novos amigos e a expectativa havia sido deletada.

43   Melhor quiche da vida

 Costumo ser decidida e rápida para quase tudo na vida. Fico pronta em 15 minutos (juro), acordo e levanto rapidinho no maior bom humor (tenho provas). Mas quando o assunto é escolher o que pedir no cardápio de um restaurante, travo. Fico na maior indecisão. Leio e releio. Tento fazer alterações na composição do prato. Olho para o pedido do vizinho. É quase um sofrimento. Adoro quando acerto. Imagina minha alegria ao pedir uma quiche e a eleger a melhor da vida? Quer a dica? Então anote o nome: French Kiss, com queijo gruyère e cogumelos, do Cafe Lalo. O ambiente é colorido, tem quadros pela parede e mesas minúsculas com centímetros de distância entre uma e outra. Essa é a proposta. Li que esse bistrô é adorado por um público intelectual acostumado a frequentar teatros e cinemas da vizinhança. Daí mesmo que me senti abafando: primeiro atravesso o Central Park com o NY Times a tiracolo, depois almoço em um bistrô onde os habitués são escritores, pintores, atores e afins… Assim ninguém me aguenta!

46   O Thai de Williamsbur

Williansburg foi a grande descoberta desta temporada em NY. Gostei tanto que voltei algumas vezes. Após horas de risadas no Voca People, fomos degustar uma comidinha tailandesa pelas bandas da Bedford Street. Que grata surpresa! Os pratos do Tai Thai são divinos, e os preços, baratos. O mais caro do cardápio custa 13 dólares. O rolinho primavera veio bem sequinho e o Curry Rice Noodle Soup estava incrível. Provei a cerveja Singha, que, segundo o rótulo, é the original thai beer since 1933. Nota 10. O ambiente é simples e aconchegante, no estilo de Wburg (abreviação de Williansburg), descolado e low profile.

47   Take a walk on the wild sid

Bateu aquela fissura de correr. Eu tinha um tempinho entre um programa e outro. Resolvi me jogar no Central Park. Decidi que faria um circuito menor para não me atrasar. Cumpri metade do trajeto habitual e peguei um atalho, algo do tipo take a walk on the wild side, rumo ao desconhecido. Às vezes é bom mudar o caminho, a rotina, as manias, os hábitos e os costumes. Sabe por quê? É quando saímos da zona de conforto que descobrimos coisas novas e surpreendentes. Assim foi neste treino. Ao quebrar para esquerda, eu pensei que simplesmente atravessaria o parque até chegar no lado oposto. Para minha surpresa encontrei um lago lindo e enorme. Era o Reservatório Jacqueline Kennedy Onassis. A luz estava perfeita, a água parecia um espelho, fiquei tão emocionada! Fui contornando enquanto pensava que nunca o teria achado se não fosse pelo atalho, pela quebra do lugar comum. Neste dia tive a melhor corrida de todas e aprendi que novos caminhos podem ser uma deliciosa surpresa

51   Bourgogne no cálice e brie na baguete

 Saí do MET no último minuto antes de fechar. Olho pela porta e vejo que está chovendo forte. Faz frio, já é noite. Fecho bem meu casaco, puxo o capuz e encaro. Resolvo dar uma desviada de duas quadras para ir à deli Dean & Deluca. Primeiro desejo: querer comprar tudo. Segundo: realizar parte do primeiro. Vou namorando balcão a balcão, escolho um baguete e um pedaço de queijo. Compro uma bolsa térmica para meus piqueniques. Lembro que tenho um vinho em casa. Ops, no hotel, que a essa altura já tinha virado meu lar. O jantar será perfeito. Chego e esparramo minhas compras pela mesa da salinha, entre as duas poltronas. Ligo a TV no canal de músicas, escolho a opção jazz. O som chega ao banheiro pela caixinha de som estrategicamente bem instalada ao lado da pia. Tomo um banho quente revigorante depois de chegar encharcada e com frio. Pão e vinho. O que mais posso querer? Tinto de Bourgogne no cálice e brie na baguete. Para sobremesa, chocolatinhos dados pela Lolo como um presentinho de welcome. Tão bom ser cuidada! Curti meu momento de aconchego do lar. Nenhum outro lugar do mundo me parecia tão aprazível.

63   Na pontinha sul da ilha

 Do Central Park à beira do rio, no extremo sul da ilha, minha temporada de corrida em NY estava acontecendo em grande estilo. A manhã do dia 31 de dezembro havia começado com uma prática de alongamento DeRose, que fazia parte da hospedagem, além do café-da-manhã. Resolvi correr na beira do rio e, assim, conhecer novas paisagens. Chegando ao Hudson, é possível escolher o trajeto em direção à Estátua da Liberdade ou a oposta, que leva ao bairro de Meatpacking District. O vento bateu na direção de um dos principais cartões-postais da cidade. Logo que cheguei ao Battery Park, fiquei encantada com o trabalho de paisagismo, as obras de arte, passarelas de madeira, detalhes coloridos no chão, bancos, poltronas de madeira e cantinhos para sentar. Gente andando de bicicleta e correndo, pais levando os filhos no parquinho, namorados de mãos dadas olhando o rio, o skyline do Brooklyn e os prédios do centro financeiro, onde ficavam as torres do World Trade Center. Vida intensa às margens do rio. Fechei o ano com uma linda e revigorante corrida