6 de novembro de 2013

Peru

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YELLOW

Por Cris Berger :: Fotos: Érico Hiller

Eu estava na serra peruana, a caminho de Machu Picchu, acabara de alcançar 4.600 metros de altitude e o ar era rarefeito. Lá em cima do mundo, perdida no meio de nada, longe da civilização, eu me emocionava. Salkantay, a grande montanha nevada, aquele gigante branco estava a minha frente, tão imponente e eu ali pequeninha o olhava completamente hipnotizada. Depois de abraçar meus companheiros pela conquista da difícil travessia saí a caminhar sozinha rendida ao meu esporte preferido: subir montanhas! Pensei em nós. Play no iPod, na música Yellow que toca uma, duas, três, quatro, cinco vezes. Look at the stars, look how they shine for you, and everything you do.

Pausa, chegamos a Machu Picchu seis dias depois de começar a caminhada de Salkantay. Era domingo. Eu já havia estado ali um ano atrás. Sempre é bom voltar a uma das Sete Maravilhas do Mundo. Éramos 14 jornalistas, agora amigos. Depois da saudação ao sol saíamos a caminhar pelas ruínas da cidade perdida dos Incas. Lá pelas tantas elegemos um gramado (antiga plantação) e ficamos apreciando a paisagem, eu dei play no iPod e o que toca? Viva la Vida, do Cold Play. Deito no chão. O Chris senta do meu lado e pede um fone de ouvido, ficamos juntos escutando e cantando. Aquele momento foi mágico, nos marcou, parecíamos um grupo de crianças a brincar.

Mais uma pausa, estou no sul do Brasil, na Pousada do Engenho. Chove forte. Nossa cabana está incrustada no meio da vegetação nativa. Estamos sentados na varanda, em cima do pelego. No Mac toca Cold Play (nada é à toa) e eu começo a contar sobre meus dias no Peru. Tu escutas atento, sorris. As horas passam lentas, preguiçosas como que a nos deixar ficar um pouco mais. Abrimos um vinho. O frio está na medida certa, uso o blusão de lã de alpaca que comprei em Cusco, tu me falas que estou linda. Beijo teus lábios. Vou relatando o dia a dia, desde a primeira caminhada… E a história é mais ou menos assim:

Deixo o Brasil num sábado de manhã. Embarcamos cedo, 6h30 eu estava no aeroporto de Guarulhos fazendo check-in num voo da Lan para Lima. Nas cinco horas que tínhamos pela frente eu escrevi alguns capítulos do meu livro sobre lugares ao redor do mundo para estar a dois. Penso em ti. Aterrissamos na Cidade Sagrada, em Cusco, por volta das 15h, e a luz estava perfeita. Ficamos hospedados no Casa Andina Private Colection. De cara fiz amizade com a Cynthia Howllet — histórias parecidas e inspiração. Mandei um torpedo para o Brasil falando de sincronia… Onde estavas tocava Cold Play.

No dia 2 de Cusco acompanho a equipe da GNT ao mercado público. Depois vamos ao restaurante Chicha — onde o chef Gaston Acurio assina o cardápio. No dia seguinte debutamos na primeira caminhada. Fazia calor, subidas e descidas íngremes marcavam o caminho. Ignorei os 10 kg que eu levava nas costas de equipamento de fotos, breve eles se fariam notar. No final da tarde a temperatura caiu rapidamente e tratamos de chegar o mais rápido possível ao conforto e calor de Salkantay Lodge, na chegada nos serviram chá de coca (devido à altitude) e logo mais fomos para a jacuzzi aquecida a 37 graus, ao ar livre. Olho para o horizonte e contemplo a duplinha de montanhas Salkantay e Huamantay. Jurei voltar no ano seguinte, uma vez mais. Quem sabe irás comigo?

Esta noite foi difícil, não consegui dormir, a altitude estava judiando. Acordei de madrugada, a insônia insistindo em não ceder, volto a dormir pouco antes da hora de acordar. A programação do dia leva à laguna de Haumantay, uma caminhada de intensidade média para exigente nos esperava e eu me sentia fraca. Um ano antes pegamos a laguna encoberta e por isso eu não cogitava não ir. Estava lenta e minhas pernas fracas. Lá pelas tantas resolvo me livrar do equipamento de fotos e coloco no lombo de uma das mulas (que prestam apoio durante a viagem e levam as malas). Mais ágil melhorei o desempenho. Chegamos no topo e um “Uau” coletivo foi escutado, é realmente muito bonito ver a laguna esmeralda em contraste com o paredão branco e preto. No final do dia cumpri a tradicional sessão de relaxamento: jacuzzi e massagem. Aquela noite eu tinha certeza de que iria dormir profundamente. Que nada! Duas da manhã a insônia chegou. Dito e feito, olhos estalados até as quatro. Por sorte acordei bem disposta porque à minha frente estava a mais difícil das trilhas, chegaríamos no ponto mais alto da travessia. O oxigênio ia nos faltar. Pensei em ti te acostumando a fazer trilhas.

Em 2008 fiz uma bolha no calcanhar que logo se transformou em um machucado feio que dificultou a caminhada no restante dos dias, cheguei a voltar de chinelos de dedos para o Brasil. Neste ano eu estava “esperta”, bota amaciada, meias grossas, esparadrapo nos dedos e calcanhar, e claro, protetor solar (para evitar a insolação). O perrengue da antiga experiência havia me ensinado algumas coisinhas: roupas inteligentes são fundamentais para o sucesso de uma aventura deste timbre, ou seja, a vestimenta deve estar composta por: calça corta vento e impermeável, uma dray fit (o suor seca rápido), um polar (por aquecer bastante) e mais um casaco corta vento e impermeável. O meu patrocinador nesta viagem foi a Big Wall, um dia antes de a viagem começar passei lá para me equipar. Sendo assim nenhuma temperatura extrema me incomodou.

Vencidas as temíveis Siete Voltas – que nem pareceram tão ruins assim — e os mil e cem metros entre o lodge e o ponto mais alto, o que vinha pela frente era jardim da infância. Almoçamos no meio do caminho, em barracas de lona, com direito a prato à francesa. Para chegar a Wayna Lodge descemos um vale com um riozinho a serpentear pelo caminho. Ao chegar, depois de oito horas caminhando, eu e a Fernanda Novaes tratamos de nos atirar no gramado, pedir duas cervejas cusqueñas e ficar a admirar a paisagem dramática.

O dia seguinte era especial, meu aniversário. Imagina que farra? A trilha do dia era fácil, apenas descida. Chegamos em Colppa no comecinho da tarde. O Enri (amigo e proprietário do Mountain Lodges of Peru) me chamou: — Cris, me perdoa, tivemos um problema com o gerador, estamos sem luz e sem jacuzzi. Eu ri e tratei de tirar proveito da situação. Não é que tive sorte? A falta de energia elétrica nos deixou longe dos computadores e com isso pudemos confraternizar muito mais. Depois do assado de machamanca (embaixo da terra com pedras quentes) ficamos na sala a jogar mímica e conversar. No final do dia fizemos um happening à macarena e à noite o jantar foi com luz de velas. Desejei que estivesses comigo.

A caminhada até o lodge de Macumabamba foi igualmente fácil e prazeroso, eu o apelidei de caminhada das pontes, há tantas, de pedras, madeiras. Neste ponto o visual muda radicalmente, não há mais neve no topo das montanhas, pois estamos a quase 2.500 metros de altitude. A selva toma conta da paisagem, há mais borboletas e pássaros e o verde é abundante. O calor é presente e se pode caminhar de shorts (dica, leve uma calça-bermuda, estas que abrindo o zíper vira calça). Nunca esquecer o repelente e o filtro solar.

O último dia reservava um trekking exigente. No meio do caminho a visão de camarote de Machu Picchu, lá do outro lado do vale. A caminhada acaba na estação de trem que nos leva à pequena cidade de Águas Calientes, base para quem vai à cidade perdida dos incas. Ficamos no hotel Sumaq, no jantar tivemos a honra de provar o menu degustácion assinado pelo chef Carlos Mayta. No dia seguinte acordamos bem cedinho para ir a Machu Picchu.

Fiz esta viagem duas vezes e me vejo todo ano a repetindo. Vale estar bem condicionado. Ela é ideal para quem gosta de natureza, luxo e aventura. Cusco é porta de entrada, mas merece uns dias no roteiro, pois a cidade tem excelentes opções de gastronomia, noite superanimada e uma gama cultural impressionante.

Serviço:

Na trilha – Mountain Lodges of Peru – http://www.mountainlodgesofperu.com

Em Águas Calientes: Sumaq www.sumaqhotelperu.com

Quem leva: Action www.actionturismo.com.br (21) 3861.9900

Quem voa: Lan www.lan.com