Opinião apresenta Clarice Falcão

Foto: Lucas Bori //

Clarice Falcão, a cantora, atriz e roteirista que conquistou o Brasil inteiro participando da websérie Porta do Fundos, virá a Porto Alegre, no dia 25 de junho, para lançar o seu segundo trabalho de estúdio, chamado “Problema Meu”.

A apresentação, que será realizada pela primeira vez no Opinião, vai misturar algumas de suas composições mais recentes, cheias de bom humor e com a aquela melancolia existencial, com os hits do seu primeiro disco, o elogiado “Monomania”, de 2013.

O novo álbum da multi-artista, que tem o mesmo potencial do seu antecessor para se tornar um viral na web, chegou às lojas e aos serviços de streaming no começo do ano e já despontou algumas composições como preferidas do público, como são os casos de “Irônico”, cujo videoclipe atingiu a marca de quase um milhão de views no Youtube em apenas dois meses, “Vagabunda”, “Eu Sou Problema Meu” e a versão balada do hit electropop “I’ll Fly with You”, do DJ italiano Gigi d’Agostino. No palco, Clarice terá a direção de Marcus Preto, que já cuidou de shows de Gal Costa e de Tom Zé, o figurino assinado por Elisa Faulhalber e o cenário de elaborado pela designer Julia Liberati.

CLARICE FALCÃO (POR MARCUS PRETO)

Quando conversei com Clarice Falcão pela primeira vez, o assunto era “Monomania”, o álbum de estreia da cantora, compositora, escritora, atriz e roteirista pernambucana, lançado poucos meses antes. Aquele era um trabalho bem fora do padrão, pois tinha sido criado sob os olhos do público, na frente da câmera, com repertório já consagrado em uma série memorável de vídeos, hits absolutos na Internet. Quem comprou o CD físico na loja sabia muito bem o que estava levando pra casa e já adorava aquelas faixas, antes mesmo de passar pela fila do caixa.

Talvez por isso mesmo, minha curiosidade inicial pulava dez casinhas adiante e tentava investigar qual seria o próximo passo. Quem seria a Clarice do segundo álbum? Será que suas canções seguiriam como roteiros com começo, meio e fim, misturando crônica de costumes, cinema existencial, quadrinhos e sitcom, naquela mesma linguagem que se tornou uma assinatura tão intransferível? E a personagem que iluminava as canções antigas, será que continuaria tropeçando no amor, obcecada pelo amado, perdida entre o mundo real aquele que ela queria que fosse? Todas as respostas chegam agora, três anos depois, nas 14 faixas de “Problema Meu”.

Pra começar a conversa, é preciso contar que a personagem principal das canções inverteu o jogo a favor dela e já não sofre mais. Ao contrário, ri da cara daquele homem tolo que acreditou que o amor descompensado que ele recebia valia alguma coisa. E a ideia parece ser essa: olhar “Monomania” pelo espelho e ver a mesma história acontecer outra vez, mas do avesso, como um tipo de amor dando errado ao contrário, uma vingança a que todos temos direito. Se a menina de “Monomania” fingia não se lembrar mais do namorado que lhe deu um pé em “Eu Esqueci Você”, a de “Problema Meu” deixa claro, em “Eu Escolhi Você”, que só ficou com o rapaz porque não tinha outra opção, pelo menos “até um outro aparecer”.

Há recaídas, claro. Tirada do baú não gravado em “Monomania”, “Se Esse Bar” segue o espírito da menina de antes, com aquela voz de esperança que nunca morre pedindo ao garçom que não feche o bar, coitada. Outro exemplo é a metalinguística “Duet”, também antiga, do tempo em que Clarice Falcão compunha apenas em inglês. A voz tristonha conta que aquela música foi composta pra ser cantada em um dueto, mas como o rapaz foi embora, ela vai ter que dar conta de fazer as duas vozes com uma garganta só.

Nem tudo em “Problema Meu”, no entanto, foi construído com a intenção de desmentir passado. Algumas faixas foram escolhidas por razões estritamente estéticas, segundo afirma Kassin, produtor do álbum. Entre elas está “I’ll Fly with You”, pescada pela cantora entre os greatest hits de sua adolescência, principalmente pela beleza da melodia. A canção, lançada pelo DJ italiano Gigi d’Agostino em 2000, perde a batida electropop dançante da versão original pra se tornar uma balada melancólica. Outro caso assim é “Banho de Piscina”, que veio do baú do pai de Clarice, o diretor e roteirista João Falcão. Deliciosamente rancorosa, a música foi escrita por ele quando tinha a idade que a filha tem agora, talvez um pouco antes.

Escrevendo isso agora, eu me lembrei também da definição que Tom Zé sempre dá à própria produção. Por não ser um músico exuberante (ele gosta de fingir que não é), entende que seu melhor caminho é pegar o ouvinte pelo cognitivo, não pelo contemplativo… E, vamos confessar, todos nós já estivemos perto de situações como as que Clarice descreve em suas canções, mesmo que muitas vezes tenhamos arrumado um jeito de disfarçar esse ridículo até de nós mesmos.