2 de novembro de 2015

Americano acaba com a hegemonia brasileira

268160_553776_1_mahalo15_kanoaigarashiusa_5766smorigo

Foto: Daniel Smorigo //

Kanoa Igarashi coroou sua classificação para o WCT 2016 com vitória sobre o australiano Connor O´Leary na primeira final estrangeira em oito anos de história do evento promovido pela Dendê Produções na Bahia.

O jovem norte-americano Kanoa Igarashi, 18 anos, acabou com a hegemonia de títulos brasileiros no campeonato mais tradicional do Circuito Mundial na América do Sul, vencendo a oitava edição do Mahalo Surf Eco Festival na manhã do domingo em Itacaré, no sul da Bahia. Ele entrou na bateria final com Connor O´Leary, 22, já garantido na elite dos top-34 da World Surf League para o ano que vem e o australiano foi o único a entrar na zona de classificação par o WCT no segundo desafio da “perna brasileira” de fim de ano da WSL South America na Praia da Tiririca. O paulista David do Carmo, 31 anos, parou nas semifinais e ficou empatado em terceiro lugar com outro australiano, Ryan Callinan, 23. Todos agora partem para a última parada antes do encerramento da temporada na Triplice Coroa Havaiana, o QS 10000 Oi HD São Paulo Open of Surfing, que começa nesta segunda-feira na Praia de Maresias, em São Sebastião.

“Não estou nem conseguindo descrever o sentimento que estou agora, só sei que está sendo tudo muito incrível pra mim”, foram as primeiras palavras de Kanoa Igarashi quando chegou ao pódio do Mahalo Surf Eco Festival. “É a maior vitória da minha vida e o melhor ano da minha vida. Está difícil de acreditar que consegui vencer esse evento com tantos surfistas bons competindo aqui, mas estou muito feliz e quero comemorar muito essa vitória e a classificação para o WCT com meus amigos”.

A grande final foi iniciada as 10h00 na Praia da Tiririca e Kanoa Igarashi já abriu a bateria voando num aéreo que valeu nota 7,0. Logo o americano pega outra onda pra direita e acerta duas manobras fortes de frontside para tirar nota 6,17. Connor O´Leary demora um pouco pra pegar sua primeira onda, mas escolhe uma boa direita para aplicar três batidas e rasgadas muito fortes que renderam nota 7,77. O australiano repete a dose na onda seguinte para tirar 5,93, mas Kanoa vem atrás numa direita maior para fazer duas grandes manobras para arrancar nota 7,40 e manter uma boa vantagem de 6,63 pontos.

Tudo isso aconteceu nos dez primeiros minutos da bateria e os dois continuaram surfando o melhor deles a cada onda. Connor continua apostando nas direitas com seu potente backside de manobras verticais, mas sem conseguir virar o resultado nas primeiras tentativas. Kanoa preferiu manter a prioridade de escolha da próxima onda, aguardando pelas maiores das séries, enquanto o australiano ia pegando as que ele deixava passar. Ele arrisca um aéreo muito alto de backside que não completa, mas continua ativo e acha uma direita que rendeu duas batidas fortes que valeram 6,97 e a virada no placar 14,74 a 14,40 pontos.

O americano passou a precisar de 7,35 pontos nos oito minutos finais da bateria, mas permaneceu tranquilo no outside aguardando por uma onda boa para tirar uma nota parecida com as duas que ele já estava computando. O tempo foi passando numa hora de calmaria no mar, o sinal de 5 minutos para o término soou sem entrar nada de ondas, mas há 3 minutos do fim ele pega uma direita, sai acelerando e decola num aéreo full rotation de frontside que arrancou 7,57 dos juízes, deixando o australiano precisando de 7,20 pontos para vencer. Só que Kanoa ainda pega outra direita pra mandar dois aéreos numa onda pequena que não entrou no somatório e o placar foi encerrada com vitória americana de 14,97 a 14,74 pontos.

“As coisas agora melhoraram bastante para mim com essa vitória”, disse Kanoa Igarashi. “Agora não tem mais pressão por resultados porque já atingi meu objetivo, então vou poder curtir um pouco mais e relaxar, mas espero ir bem lá em Maresias (SP) também na semana que vem. Estou adorando o Brasil, gostei muito da vibração do povo aqui em Itacaré e já estou ansioso para competir no próximo evento que já começa amanhã (segunda-feira) né”.

Apesar de não ter vencido o Mahalo Surf Eco Festival, o australiano Connor O´Leary também ficou satisfeito com sua atuação nas ondas da Tiririca e sai da Bahia como recordista absoluto do campeonato, além de ter sido o único a entrar na zona de classificação para o WCT em Itacaré. “Sim, foi um grande resultado para mim. Essa é a minha primeira final em um evento importante do QS, então estou amarradão. As ondas hoje (domingo) estavam um pouco mexidas por causa do vento forte, mas ainda tinham boas direitas para tirar grandes notas, então está tranquilo e saio daqui feliz pelo vice-campeonato também”.

SEMIFINAIS

A primeira semifinal começou as 8h15 nas direitas da Praia da Tiririca que entravam com melhor formação no lado esquerdo da arena do evento. O americano Kanoa Igarashi largou na frente com notas 6,83 e 8,00 em duas ondas seguidas. O australiano Ryan Callinan só reagiu nos minutos finais, quando surfou sua primeira onda boa para mostrar a potência das suas manobras e sair da “combination” com uma nota 8,83. Mas, não teve tempo para pegar outra com potencial e a bateria foi encerrada em 14,83 a 13,16 pontos.

Na segunda bateria do dia, David do Carmo pegou a primeira onda que foi fraca e Connor O´Leary começou melhor com uma nota 6,67, mas logo o brasileiro acha uma boa esquerda para fazer uma série de três manobras e ganhar 6,73 para assumir a ponta. O australiano fica buscando as direitas onde ele fez os recordes do campeonato no sábado e consegue 6,30 para retomar a liderança e abrir 6,24 pontos de vantagem sobre David.

O mar então dá uma parada e o australiano pega outra direita na prioridade do brasileiro para tirar 6,17, que foi inferior a sua segunda nota computada. As ondas demoram a entrar e David passa a atacar as direitas de backside para tentar a virada nos minutos finais. No entanto, não conseguiu a virada no placar com as notas 5,27 e 5,97 da sua última onda. Mesmo assim, o terceiro lugar no Mahalo Surf Eco Festival foi o seu melhor resultado no ano.

“Infelizmente eu errei a última manobra nessa onda que até tinha um potencial, mas não consegui acertar a manobra que eu estava fazendo no campeonato inteiro. Eu rasguei e quando voltei o lip já estava em cima de mim e aí só espremi a onda, não consegui atacar ela como eu queria pra tirar uma nota mais alta”, disse David do Carmo, que subiu da 61.a para a 45.a posição no ranking com o terceiro lugar em Itacaré. “Eu acredito que se eu conseguisse atacar ela do jeito que eu pretendia, poderia ter saído a nota que eu precisava pra vencer. Mesmo assim foi um grande resultado, não dá pra ficar triste. Eu só estava perdendo nas etapas do QS e fazer uma semifinal aqui foi muito bom pra mim”.

TRADIÇÃO NA BAHIA

A oitava edição do campeonato mais tradicional do Circuito Mundial na América do Sul promovido pela Dendê Produções foi o melhor da história. O Mahalo Surf Eco Festival distribuiu uma premiação de 150 mil dólares e também registrou outro recorde com a participação de 144 surfistas de 24 países se apresentando nas ondas da Tiririca, em Itacaré, no litoral sul da Bahia. Mais uma vez, o evento lotou a cidade, principalmente no fim de semana com os shows de grandes atrações da música nacional, como Seu Jorge, Cidade Negra, Ponto de Equilíbrio, Legião Urbana, Baiana System, entre outras.

Em 2015, pela primeira vez também, o Mahalo Surf Eco Festival foi vencido por um surfista de outro país, o norte-americano Kanoa Igarashi. Até o ano passado, só tinha dado Brasil no alto do pódio, começando com Adriano de Souza ganhando a primeira edição em 2008 na Praia do Forte, em Mata de São João, no litoral norte da Bahia. Depois, o evento mudou para Salvador e três surfistas festejaram seus primeiros títulos no Circuito Mundial, o cearense Marcio Farney em 2009, o baiano Bino Lopes em 2011 e o capixaba Krystian Kymerson em 2012. Em 2013, nova mudança para Itacaré e o pernambucano Halley Batista conquistou o primeiro título na Praia da Tiririca, com o paulista Alex Ribeiro sendo o campeão no ano passado.