15 de abril de 2015

O ritmo ideal para correr!

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Por Dr. Henrique Pinheiro e Dr. Douglas Soares // 

 

Planejamento para exercício deve respeitar as singularidades do corredor.

Segundo relatório publicado em fevereiro pelo Journal of the American College of Cardiology, corridas em excesso podem ser tão danosas à saúde quanto o sedentarismo. Ao longo de 12 anos, o trabalho avaliou um grupo formado por mais de mil corredores e “não-corredores” saudáveis. As pessoas que mantinham um ritmo constante durante menos de 2 horas e meia por semana apresentavam menores riscos de morte. Já quem empregava mais de 4 horas por semana à atividade mostrou ter os mesmos índices de mortalidade de indivíduos sedentários também avaliados no grupo.

Com a publicação deste relatório, levanta-se a questão do chamado “ritmo ideal” para realizarmos as corridas de maneira saudável e com resultados positivos. Os cientistas responsáveis pela pesquisa indicam que este padrão seria de, no máximo, 2 horas e meia por semana, divididas em três vezes, mantendo uma velocidade de 9km/h. Acima disso, aponta o estudo, pode haver alterações no coração durante a prática do exercício extremo, o que contribui para o aumento dos ricos de morte.

Para o médico Henrique Pinheiro, do Instituto de Medicina do Esporte do Hospital Mãe de Deus, o ritmo deve ser definido respeitando as singularidades de cada pessoa, não tendo por base uma recomendação generalizada. Segundo ele, a comunidade científica tenta definir nos últimos anos um padrão ideal, gerando muita controvérsia no meio. “O que temos bem estabelecidos são dados de estudos observacionais que indicam uma tendência contrária ao que foi apresentado agora. Porém, este último trabalho apresenta resultados discordantes de estudos populacionais semelhantes já realizados. Estas suas constatações ainda não devem ser encaradas como recomendações para seguir à risca, pois são conflitantes com os Guidelines (diretrizes) publicados por sociedades internacionais ligadas ao assunto, que sugerem que a progressão de intensidades leves para intensidades altas de exercício reduz a mortalidade”.

O educador físico Douglas Soares, também do IME, segue a mesma linha e define como “utópica” a busca de um padrão ideal. “Essa cadência foi identificada para a população específica do estudo e não pode ser extrapolada para todos. Cada indivíduo tem seu o próprio ritmo. E esse ritmo pode ser identificado com exames específicos, como os testes de carga incremental”.

Dr. Henrique Pinheiro lembra estudos como o Framingham Heart Study, o qual destaca um aumento na expectativa de vida para quem pratica exercícios moderados e intensos, comparando a pessoas que aplicam intensidade leve. O médico também cita o trabalho publicado em 2014 pela norte-americana Clínica Mayo, que analisou mais de 40 mil atletas e mostra que esportistas de elite tem 67% menos chances de morte em relação à população em geral – incluindo menos óbitos por doenças cardíacas e câncer.

Quanto ao que podemos definir como intenso ou moderado, Dr. Pinheiro explica que os termos dependem da intensidade do exercício, medido em parâmetros como, por exemplo, o percentual da capacidade aeróbica máxima, percentual da frequência cardíaca máxima, ou através da estimativa de equivalentes metabólicos.  As horas de corrida ou de qualquer outra atividade são melhores definidas como a duração do exercício. Desse modo, é estabelecido um valor ideal mínimo, de 150 minutos por semana de atividade física moderada ou 75 minutos por semana de atividade física intensa. Em relação ao valor máximo, as recomendações atuais das principais diretrizes não limitam a quantidade de corrida por semana. “Pelo contrário, incentivam uma dose maior”, comenta o médico.

Por outro lado, professor Douglas observa que alto rendimento não é sinônimo de saúde. “Corredores que empregam maiores ritmos e percursos são orientados por profissionais para alcançarem grandes resultados com o mínimo de efeitos danosos à sua saúde. O American College Sports Medicine (ACSM) recomenda exercícios de alta intensidade três vezes por semana ou cinco vezes de intensidade moderada no período, com duração em torno de 30 minutos cada para manutenção da saúde”.

Em relação ao índice de mortalidade, Dr. Pinheiro diz que o relatório publicado pelo jornal traz dados conflitantes, o que também requer uma análise mais aprofundada com melhores explicações. Segundo o médico, dois estudos utilizados como fontes apontam maior expectativa de vida justamente para quem pratica exercícios intensos. “Nenhum risco do exercício é maior do que o seu benefício, não existindo contra-indicações formais para a sua realização. Se formos pensar nos riscos à saúde, eles existem se a atividade física não for realizada da maneira correta.  As corridas em excesso, assim como outros esportes em dose exagerada, podem trazer riscos à saúde por alguns motivos. Se formos pensar nos riscos, devemos citar a morte súbita, infarto do miocárdio, arritmias, hipoglicemia, entre outros. Em relação aos problemas do coração citados no relatório, é muito importante enfatizar que não é o exercício que o causa, seja ele leve, moderado ou intenso. O que ocorre é que o exercício pode ser um gatilho para algum problema cardíaco grave já existente no indivíduo, sendo que o desfecho provavelmente iria ocorrer em qualquer outro momento da vida”.

Para detectar estes e outros problemas de saúde que podem ser desencadeados pela atividade física, recomenda-se realizar a chamada “avaliação pré-participação”, conduzida pelo médico do esporte. Este exame permite o diagnóstico e a prevenção de diferentes doenças. Não havendo contraindicações no diagnóstico, o segundo passo é buscar a orientação de um educador físico. “Baseado em alguns testes, como ergoespirometria, dinamometria e bioimpedância, elaboramos o planejamento de exercícios adequado às necessidades e objetivos de cada pessoa. Neste momento, será periodizado o treinamento de forma personalizada, levando em consideração o objetivo individual”, explica professor Douglas Soares.