42 dias no paraíso!

Fotos: Henrique Pinguim, Leonardo Neves e Leonardo Dale  //

Por Juliana Freitas

Foram 42 dias no paraíso, e como sempre o Taiti me surpreendeu novamente. Assim que chegamos à ilha, já pude sentir aquele astral que eu tanto amo do Taiti; a sensação que tive foi de que eu havia vindo ontem, o mesmo calor, a mesma energia e poucas coisas tinham mudado no meu paraíso.

Como nos anos anteriores em que tive a oportunidade de ir para Teahupoo, em 2014 não foi nada diferente. Cheguei com um grupo de amigos no aeroporto de Papeete, e uma das primas da família Taupua, a mesma com a qual sempre fico, já estava nos esperando no aeroporto. Fizemos um pequeno caminho até onde o meu pai taitiano e a minha mãe estavam nos esperando com um outro carro, pois dessa vez eu não estava sozinha, como nas outras; agora grandes amigos estavam junto em minha nova aventura. Foi uma hora e meia até a casa da minha família taitiana, e assim que chegamos, lá estavam as minhas irmãs locais me esperando.

É engraçado como, quando temos uma conexão muito forte com alguém, mesmo se ficamos longe por um longo tempo, ao nos reencontrarmos, a sensação é de se ter visto essas pessoas pouco tempo antes. É o que sinto por minhas irmãs taitianas. Fomos recepcionados com grande alegria e emoção, foi um chora daqui e chora de lá! Afinal, eu não encontrava a minha família Taupua havia sete anos, e como eu estava com saudades de todos!

Ao descer do carro, já ouvi o barulho da minha onda favorita no mundo todo; perguntei aos meus amigos se eles conseguiam ouvir o som dela, mas eles disseram que não. Eu sempre tive um ouvido muito afiado para o barulho das ondas, e para Teahupoo meu ouvido nunca falhou; sei dizer o tamanho exatamente só de ouvir o som que ela faz. Sabia que não estava grande, mas sabia que ela estava ali quebrando só esperando por nós no dia seguinte.

No dia seguinte, já fomos dar uma olhada de perto e remamos até o pico. Estava pequeno, mas sabíamos que um bom swell estava vindo, então, mesmo com ondas pequenas, surfamos e nos divertimos muito. Teahupoo, mesmo quando está pequeno, é meio traiçoeira, a onda é fácil quando está até três pés, mas um pequeno erro pode te deixar todo ralado, pois o reef é bem afiado e vivo; e mesmo com ondas pequenas, ela sempre resolve nos presentear com algumas séries maiores, que podem vir do nada e te pegar de jeito, quebrando sem dó nem piedade na cabeça.

O primeiro surfe foi muito bom. Acreditem, chegar a Teahupoo e já logo de cara pegar seis a oito pés de oeste não é muito legal, com certeza assusta qualquer um; é lindo de se olhar e um espetáculo, mas chegar com um swell pequeno e ir se adaptando é muito melhor, pois quando elas crescem, você meio que já está adaptado ao balanço da onda e a todos os seus truques.

Após uma semana, o primeiro grande swell veio. Nós todos já sabíamos o que estava vindo, então, na noite anterior, todos estavam superansiosos; eu mesma mal dormi a noite toda, pois ouvia o barulho das ondas quebrando na beira, em frente à casa onde eu fico, e pelo som sabia que o outro dia seria forte. A previsão era de 7 a 12 pés. Ao acordar, nos organizamos e fomos para o pico, que estava muito bonito e ao mesmo tempo superlotado; as ondas estavam com um tamanho de seis a dez pés na série e havia algumas perdidas de 12, mas essas raramente quebravam.

Amo o Taiti e sempre vou defender e dizer que é o meu lugar predileto do mundo, mas naquele dia notei que as coisas estavam mudando: antigamente, em um dia como aquele, você até iria encontrar crowd, mas naquele momento parecia que eu estava em Pipeline, pois a guerra por uma onda boa estava braba. Ainda assim pude surfar ondas ótimas, fiz um tubo muito longo e senti a adrenalina de que eu tanto gosto dessa onda.

Muitos me dizem que eu sou uma das poucas mulheres que surfa Teahupoo em condições difíceis, e isso me deixa feliz, porque eu realmente gosto, não surfo para provar nada a ninguém nem para aparecer. Eu sempre gostei de adrenalina e de estar testando os meus limites. Não sou uma big rider, longe disso, mas gosto de ondas consideradas perigosas e com um tamanho considerado maior do que o normal. Sei que é bem perigoso, e já quase morri inúmeras vezes, agora, vai explicar isso para a minha cabeça, que, mesmo quando sinto medo, ainda me manda ir! Amo a sensação que tenho após um dia de ondas assim, me sinto tão feliz e completa depois de um dia de surfe em ondas como Teahupoo, que é difícil descrever a sensação. São três temporadas já nessa onda, e sinto que a cada uma me supero mais e mais.

Após esse swell, pegamos vários dias com tamanhos regulares, e alguns outros com um tamanho maior, mas nada comparado ao primeiro swell que vimos.

Como eu mesma disse, a cada ano me jogo mais, então, ao mesmo tempo, tenho mais machucados também! Neste ano surfei somente de roupa de borracha, pois, com a experiência que tive das outras vezes, sei o estrago que bater no coral faz e o quanto demora para cicatrizar um machucado ganhado em Teahupoo. Eu mesma estou com um que já está fazendo aniversário de um mês. Dizem que o limão, que tanto aconselham passar logo após nos cortarmos, não ajuda, mas ajuda, sim; por experiência própria, vi que um machucado que tive e no qual não passei limão logo em seguida demorou muito mais para cicatrizar do que um em que passei. Mesmo assim, um conselho que dou a todos que pretendem visitar a ilha algum dia é que levem bastante remédio para cortes (antissépticos, anti-inflamatórios e antibióticos), pois um pequeno arranhão se torna uma ferida enorme caso mal cuidado, e os remédios lá são muito caros. Também aconselho a fazer um seguro antes da viagem, pois a onda é perigosa: um vacilo e é hospital mesmo, se ela te pegar de jeito. Também aconselho a todos a levarem comida, sim, comida, pois lá é tudo muito caro. Como dizem, o paraíso não é barato! Outra dica é o repelente, pois tem mais mosquito que onda, e ainda tem a epidemia da dengue, que também chegou pela ilha.

Nesta temporada no Taiti, me machuquei muito: retornei da viagem com tantos roxos e cortes que nem pareço uma mulher, e sim mais um moleque arteiro. A minha roupa de borracha, então, que o diga; abandonei lá mesmo, pois estava parecendo uma peneira, de tanto rasgo. A coitadinha aguentou bastante, e ainda bem que a usei, pois sem ela teria, com toda a certeza, tomado alguns pontos. Surfar essa onda tem o seu preço, e o meu foi não ter joelhos bonitos, pois estão cheios de cicatrizes. Bom, dos males, o menor, pois ficar com algumas cicatrizes após surfar essa onda tão perigosa é lucro perto dos estragos que ela pode fazer. Como meu amigo Tahurai, um bodyboarder local, diz, um tubo bom em Teahupoo tem o seu valor, e às vezes a onda cobra caro. Pude ver vários amigos com cortes enormes na cabeça e cheios de pontos, outros com o ombro deslocado e outros parecendo que tinham sido passados na máquina de moer carne. Não presenciei a hora em que a atleta Maya Gabeira quebrou o nariz, pois eu tinha acabado de sair do mar, minutos antes. Ela é uma que sabe o quanto essa onda é agressiva para mulheres, pois já se lesionou inúmeras vezes lá.

Após eu colocar pânico e terror em todo mundo, falando somente dos perigos dessa onda tão maravilhosa, ainda assim aconselho a todos a visitar o paraíso. O Taiti tem o verdadeiro espírito ALOHA, e mesmo quem não surfa vai sentir isso. São tantas maravilhas, vegetação exótica, montanhas magníficas, animais marinhos de todas as espécies e, na minha opinião, o melhor de tudo, um povo com um amor e carinho enorme para oferecer a todos.

Neste ano não surfei uma onda maior do que a que peguei em 2007, mas tirei o triplo de tubos que no ano anterior. Então estou muito no lucro, é sinal de que estou aprendendo a ler essa onda tão complicada. Comi muito peixe, o meu prato predileto – poisson cru –, e conheci outros que se tornaram meus prediletos também, o mape e o taro.

Apresentei à minha família taitiana grandes amigos e reencontrei minhas amigas irmãs, Marcella Callado e Camilla Callado, novamente para essa nova aventura, após todos estes anos, e tudo foi muito bom. Vivemos grandes momentos na ilha. Aquele lugar, para mim, é o lugar a que sempre vou para refletir. Costumo dizer que todos que vão ao Taiti voltam diferente, pois acabam usando os dias na ilha para relaxar, pensar na vida, e quando retornam ao seu lugar de origem, tudo muda. Comigo sempre foi assim, e tenho quase que certeza de que com os outros também. Aquele é o lugar da transformação: uma vez em Teahupoo e, escrevam, nunca mais sua vida vai ser a mesma. Posso ser exagerada, mas as histórias que conheço de algumas pessoas que passaram por lá me provaram que estou certa em meu ponto de vista.

Gostaria de compartilhar aqui com vocês um pouco das coisas que aprendi com a minha família taitiana. Essa família é extremamente mística, assim como outros taitianos do povoado de Teahupoo.

Na casa onde eu fiquei, havia uma menina grávida, a Valentine. Eu pude acompanhar o final da gravidez dela, e achei muito legal uma das coisas que vi a minha mãe taitiana fazendo. Após o nascimento do bebê, a mãe apareceu com um saco e nele havia a placenta do bebê. Eles enterram a placenta em um lugar junto com uma muda de uma planta, que se tornará uma árvore linda, e dizem que, quando a árvore morre, a pessoa morre também. Elas me comprovaram que a lenda não era mentira com algumas histórias, e eu achei muito lindo, pois realmente o Taiti tem as árvores mais lindas que eu já vi e é o lugar mais florido também. Achei meio estranho que a mãe pedisse que eu – e não as meninas – plantasse a placenta; perguntei o porquê, e elas não me falaram. Pensei logo: por eu estar solteira e por elas desejarem tanto que eu volte com o meu futuro marido e filho para a ilha. Posso estar enganada, mas, pelas brincadeiras que elas faziam comigo, foi o que entendi!

Outra coisa bem legal que também se vê quando se vai ao Havaí, e também é bastante visto no Taiti, são as moças usando flores na cabeça. Uma flor do lado direito significa solteira, e uma do lado esquerdo, que é o lado do coração, significa casada. Como eu mesma disse, elas viviam brincando comigo por eu estar sozinha, e me mandaram colocar uma árvore com flores no lado direito, de uma vez por todas, para ver se isso mudava!

Para finalizar, deixo a minha última dica: se forem ao Taiti, comam o fafaru. É uma comida tímica e meio mística também: um peixe cru, que é deixado em um recipiente fechado com água, alho e cebola durante alguns dias, e é servido de várias formas, sendo a melhor a que acompanha batata-doce e leite de coco – o cheiro é horrível, mas dizem que o valor nutritivo triplica ao ser preparado dessa forma. É bem conhecido por ser a comida dos reis no Taiti, e diz a lenda que quem come sempre retorna à ilha. Então, “bora” comer bastante fafaru em sua ida ao Taiti, para que você retorne sempre e possa desfrutar tanto quanto eu pude.

Quero agradecer ao meu patrocinador, AGTAL, e apoiadores Seaster, Hermosa biquinis, Malarrara, Ipanema Pilates e academia Power Club, por me ajudarem sempre.

Estou treinando muito para o tour mundial e, após a temporada havaiana, tive a oportunidade de poder treinar em Teahupoo, no Taiti. Logo em seguida, estarei seguindo para o Chile, onde compito pela segunda etapa do mundial. Conto com a torcida de todos e também peço que me ajudem na divulgação do meu trabalho como atleta, assim, consequentemente, me ajudando na procura de novos patrocinadores.

Mauruuru a todos!