6 de novembro de 2013

Automobilismo

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Juliano Moro

Duas décadas dedicadas ao automobilismo

Texto: Lúcia Frederes

Foi no dia 21 de maio de 1989 que o gaúcho Juliano Moro competiu, pela primeira vez, em uma categoria automobilística. Dando as primeiras aceleradas no kart, e conquistando a primeira vitória. Vitória que virou plural, já que o menino de 11 anos venceu todas as etapas de que participou nesta temporada de estreia.

Seria um sinal? Era um novo talento que surgia? Aos olhos de ninguém mais, ninguém menos que o Tricampeão Mundial de Fórmula 1 Nelson Piquet, não era um sinal; era um fato! E agora, 20 anos depois, sua namorada Lúcia Frederes deu uma revirada no baú para relatar brevemente a história do gaúcho que foi mais longe no automobilismo mundial!

O INÍCIO NO KART:

Como quase todos os meninos por volta dos 10 anos de idade, Juliano sonhava ser um jogador de futebol. Mas isto foi só até acelerar pela primeira vez um dos karts que seu pai, Ademar, produzia em sua empresa. De lá até entrar para o mundo das corridas foi uma questão de tempo. Pouco tempo!

Durante 6 meses de 1989 competições regionais bem-sucedidas marcaram o começo da carreira do pequeno piloto, então Ademar decidiu “testar” o filho em uma competição nacional, e veio a surpresa: pole position e primeiro lugar no pódio!

O crescimento dele acontecia rapidamente. Além de não ter medo de acelerar, mostrou que sabia acertar um kart com perfeição, pois compreendia de uma maneira fora do normal em garotos daquela idade, a mecânica do equipamento.

Mas nem tudo foram flores, ou melhor, pódios. Pouco antes de um campeonato mundial de kart que aconteceu na Argentina, Juliano quebrou um pulso em um acidente de corrida. Foram-se as esperanças de competir um mundial, pois até acontecer outro perto do Brasil ele não estaria mais competindo nesta categoria. Porém, no dia em que Juliano completava 16 anos ele foi ao médico para saber como estava sua recuperação, e recebeu a notícia que queria naquele momento: havia se recuperado extraordinariamente rápido e usando uma tala poderia competir!

No dia seguinte seu pai fez um kart novo e entrou em contato com a empresa que lhe conseguiria o motor. Acabaram só conseguindo um motor usado, mas naquela altura do campeonato, com todo mundo já treinando há dias e eles chegando quase que só para classificação, o que viesse era lucro.

Dois dias depois Juliano e Ademar voaram para Argentina e conseguiram participar do último dia de treinos.

No primeiro dos dois treinos Juliano fez de cara o terceiro melhor tempo (a folha com esta colocação está guardada até hoje). E no início do segundo, o motor quebrou. Conseguiram arrumar, mas o treino já estava perdido.

Dia de classificação; Juliano, sem ter onde amaciar o motor consertado, o fez no estacionamento mesmo. Foi classificar mas o motor quebrou novamente. Caiu para repescagem dos últimos pilotos que poderiam largar e acabou se envolvendo em um acidente que lhe tirou as chances de completar o grid de número determinado de karts!

Mas kart é assim mesmo, lamentam-se muito perdas de competições por quebras de motores, e Juliano é mais um piloto que conhece este assunto. Dentre outros títulos, perdeu a chance de ser Bicampeão Pan-Americano por uma destas quebras.

Mas então, em 1995, com as suas conquistas em campeonatos nacionais e o seu Pan-Americano na bagagem, migrou para outras categorias.

Foi quando Nelson Piquet entrou na história…

A IDA PROS FÓRMULAS:

Ao ver Juliano correndo de kart, Piquet se interessou pelo piloto promissor que ele apontava ser. As famílias acabaram se aproximando e Juliano foi morar na casa de Nelson em Brasília.

Este nunca escondeu o que achava de Juliano, dizia sempre que o gaúcho iria para Fórmula 1! E acreditou tanto em seu talento que apadrinhou o início de sua carreira nos fórmulas.

Nesta época Nelsinho não tinha nem 10 anos de idade, e então seu pai acabava se dedicando mais à carreira de Juliano. Sua estreia nos monopostos foi na Fórmula Ford, equipe de Jorginho de Freitas (alguém que Juliano guarda no coração como se fosse um membro da família), e suas experiências nos dois  anos em que trabalharam juntos foram muito positivas. Com exceção de uma única prova, a pior colocação de Juliano em corrida completada foi o terceiro lugar.

No primeiro ano ele acabou o campeonato na quarta posição, e no segundo levou o título de campeão com uma prova de antecedência.

Neste mesmo ano ele competiu em apenas uma corrida de Fórmula 3 Sul-Americana a convite de Amir Nasr, e ganhou a prova! Isto chamou atenção de Amir, que em 1997 mais uma vez o procurou. Era para uma corrida única também de Fórmula 3 Sul-Americana que aconteceu em Piriápolis, no Uruguai… Amir ligou comunicando Juliano que tinha de fazer as malas porque ele estava chegando a Porto Alegre e o levaria junto ao Uruguai para correr na equipe dele. Foi a primeira vez que Juliano correu em um circuito de rua, achou tudo muito estreito, acabou o treino na oitava posição mas classificou melhor, no terceiro lugar.

Quando a luz verde da largada acendeu e os carros aceleraram, a adaptação já estava completa, Juliano passou o segundo colocado na largada e ainda na primeira volta assumiu a primeira posição que seria sua até o final da corrida.

Em 1998 foi a hora de se exportar para Europa. Foi morar na Inglaterra, onde competiu na categoria Palmer Audi. Terminou o campeonato na oitava posição. Um resultado mediano, hoje visto como inconsequente pelo próprio piloto que diz que tentava arrojar demais e acabava se dando mal, mas significativo o suficiente para mostrar um arrojo que muitos chefes de equipe procuram em seus pilotos, talvez o que tenha feito Amir Nasr, mais uma vez, procurá-lo.

Em 2000 Juliano competiu o ano inteiro na equipe de Amir e ficou com o vice-campeonato, e em 2001 foi a sua vez, novamente com uma prova de antecedência, Juliano Moro conquistou título de Campeão de Fórmula 3 Sul-Americana.

A esta altura Nelson Piquet já estava mais envolvido na carreira de Nelsinho (que aliás correu com Juliano nas últimas provas da F3 no ano da conquista do título), mas com o bom desempenho Juliano colheu frutos e conseguiu uma vaga para correr na Fórmula 3000, categoria de acesso à Fórmula 1.

De volta à Europa, Juliano foi direto para o treino e a primeira corrida, nem participou da pré-temporada. Estava sem preparo físico, nunca sentiu tanta dor guiando um carro. No primeiro dia dava 4 voltas e não levantava mais a cabeça. Na corrida chegou a pensar em rodar e abandonar a prova, havia classificado mal, lá pela 20ª posição, mas ficou satisfeito ao completar a prova no 11º lugar após 55 voltas. Depois disto acelerou o ritmo da malhação e se tornou um verdadeiro piloto; magro, forte e pescoçudo. Estava evoluindo, chegou a largar em 4º, porém as coisas não aconteceram como o previsto… Com o dólar em alta, patrocínios que já eram difíceis no Brasil, tornaram-se impossíveis no exterior, e o gaúcho acabou ficando sem o seu e, conseqüentemente, sem condições de se manter na Europa. Teve de voltar pra casa antes do final da temporada, praticamente entregando suas chances de tentar ir para Fórmula 1.

Juliano nunca foi de desistir sem tentar, ele sabe que fez o que pôde na ocasião, e sem frustrações voltou ao Brasil para curar só a tristezinha que veio na mala, e a fez ao lado da maior de todas as suas conquistas: Marcela, sua filha que acabara de nascer.

Pouco depois houve a possibilidade de testar na Fórmula Indy, mas era hora de ficar mais próximo à família, então resolveu trilhar um novo caminho, foi competir na StockCar em uma nova equipe, de um cara chamado Amir Nars e o piloto da Fórmula Indy Hélio Castroneves.

Mas equipe nova e piloto novo (Juliano nunca havia competido em categoria de Turismo) não foi uma combinação muito produtiva. Juliano não podia trabalhar no acerto do carro, e depois de dois anos com pouca evolução, mudou de equipe e foi virar piloto/engenheiro ao lado de Aloysio Andrade na Nascar Motorsport.

Uma equipe pequena que exige mais do piloto do que apenas guiar. Então Juliano acabou desenvolvendo muito mais a sua sensibilidade para “sentir” o carro e resgatou dentro de si aquele menino que acertava karts como gente grande. Hoje ele acerta carros com a mesma facilidade com que os guia. Conseguiu chamar atenção na maior categoria do automobilismo nacional por ser um piloto “completo”, conseguiu ficar entre os primeiros colocados com um carro que só ficava entre os últimos, conseguiu ter o passe disputado, mas… Sem patrocínio as chances escapam por entre os dedos. Infelizmente, patrocínio para quase todos esportes no Brasil ainda é algo muito difícil, mas quando se ama o que faz, sempre se dá um jeito!

Então Juliano decidiu não ficar só contando com o que os outros poderiam fazer por ele, e juntamente com seu pai ressurgiu uma ideia que já haviam colocado em prática, mas que estava andando a uma marcha mais lenta…

Retomaram com força total um projeto que começou em 1999 com o primeiro protótipo desenvolvido pela sua empresa MetalMoro. Na ocasião havia uma equipe querendo um carro para competir as tradicionais 12 Horas de Tarumã, Ademar finalizou então um projeto já iniciado, entregou o carro pronto em tempo recorde e Juliano Moro, João Santana, Adriano Baldo e Luciano Mottin venceram a prova.

A vitória despertou a vontade de continuar construindo estes carros, e assim o fizeram, e agora em 2009 finalizaram e aprovaram uma última versão, o MRX (o carro mais rápido produzido no Brasil), que bateu o recorde da pista de Tarumã em carros desta categoria (e dentre todas as categorias perde apenas para os Fórmulas 3) completando uma volta abaixo de 1 minuto. (Juliano foi o piloto do recorde). Recorde este que aconteceu quando Juliano e seu companheiro Cristian Castro venceram a primeira etapa do campeonato gaúcho de Endurance (que também era a segunda etapa do campeonato nacional de mesma categoria) com duas voltas de vantagem para os segundos colocados que guiavam uma Ferrari GT2.

20 anos de carreira não conseguem ser descritos em algumas linhas, mas este breve histórico tem o intuito de apenas contar uma história que aconteceu (e ainda acontece) bem próximo a nós. A história de um gaúcho que com orgulho carrega a bandeira do nosso estado e que com talento exalta as qualidades do Rio Grande do Sul.

E neste ano da comemoração desses 20 anos, a Sports Mag oferece, no mês do aniversário do piloto, esta homenagem como presente.

Parabéns!