6 de novembro de 2013

Blues are back!

10-02-foto10 - blues - by dudu castro
10-01-foto4 - blues - by dudu castro
10-03-foto15 - blues - by dudu castro

Fotos e texto: Dudu Castro.

Um relato que em breve pode virar apenas uma história para contar aos nossos filhos. Hoje ainda é possível ver ‒ e de perto ‒ um dos maiores mamíferos do mundo. O que eram mais de 275.000 baleias, hoje são apenas 12.000. Sorte de quem viu! Lá na Califórnia, o gaúcho Dudu Castro relata esse momento único e mágico, que em breve pode se tornar apenas uma lembrança para nós.

Foi numa terça-feira despretensiosa, dia nublado, com aquela cara de “sei-não”, que recebo uma mensagem de texto no meu celular (pois hoje em dia ninguém mais me liga) do amigo Phil:

“Blues are back!”

Assim que li a mensagem, fiz o que ninguém deve fazer quando recebe um SMS: liguei pro cara! Eu sei, diz a etiqueta “ciberinternetiana” para nunca telefonar para alguém após receber uma mensagem de texto. Mas fazer o quê?! Sou “old school”:

- Phil! Sou eu! Sério?! Tão de volta?

- Sim! E tem que ser hoje, disse Phil com uma voz cheia de empolgação!

- “Podiscrê”! Te vejo em uma hora no StartMeUp!

- Beleza! Te vejo lá!

Segundos antes de eu desligar o celular, ouço lá no fundo: “E da próxima vez que eu te mandar um SMS, não me ligues, pois…” e a voz ia sumindo à medida que distanciava o celular do ouvido. Na real, fiz que não entendi e desliguei o aparelho.

Arrumo a bagulhada em minutos e me mando para o StartMeUp, nosso simpático barco, atracado na marina de Redondo Beach, Califórnia. O nome é em homenagem à melhor banda de rock do mundo. Compramos esse barco para nossos mergulhos, mas nessa época do ano (entre setembro e janeiro) baleias de todos os tipos migram do Alasca para as águas “calientes” do México, para fazer amorzinho. Em função disso, usamos o velho barco de guerra para registrar esses mamíferos encantadores.

Mas essa terça-feira era diferente.

Sempre nos aventuramos no Pacífico para ficar mais perto das grandonas baleias cinzas… mas esse ano… o lance foi especial. Devido à mudança de temperatura da água, as baleias que apareceram foram as baleias azuis! Pelo segundo ano consecutivo! O maior animal do planeta! Monstrengos que podem chegar a 30 metros de comprimento e pesar ao redor de 200 toneladas.

Apesar de estar na lista dos animais ameaçados de extinção, sua população aumentou após o banimento da caça às baleias, nos anos 60. Ninguém sabe o número exato. Alguns estudiosos dizem que aumentou em 7% (dependendo da região), mas todos confirmam que está abaixo de 1% do seu número original. Estima-se uma população entre 5.000 e 12.000 baleias azuis no mundo (antes da caça às baleias, esse número chegava ao redor de 275.000).

Mas o que mais me deixa louco é que ainda existem pessoas sem noção dizendo que o aquecimento global é uma farsa. Ora bolas! Essas baleias fazem essa migração do Alasca para o México todos os anos. Mas a diferença desses dois últimos anos para os passados é que elas migravam a 150 km da costa. Nessa terça-feira, elas estavam a 5 km!

A parada é fácil de entender: o aquecimento global derrete os glaciais, permitindo que uma grande quantidade de água doce flua para os oceanos. Se essa quantidade de água doce nos oceanos atinge um ponto crítico, há uma mudança na temperatura. Considerando que os padrões migratórios da baleia azul baseiam-se na temperatura do oceano, uma interrupção nessa prática influencia diretamente sua migração.

Por isso que as azuis estavam a 15 minutos da porta da minha casa!

Chegando ao StartMeUp, aprontamos o barco e saímos à “caça fotográfica” do Maior de Todos, ao som, é claro, de Rolling Stones. Após cinco minutos navegando, conseguimos visualizar o spray de uma das gigantes! Aí fica fácil. É colocar a proa em direção ao spray e torcer para que ela faça algum malabarismo aquático!

A sensação é muito louca! Logo que chegamos ao território das azuis, desligamos os motores, baixamos o som e ficamos ali boiando no belo Pacífico. Minutos depois, um barulho de spray corta o nosso silêncio! Eram duas baleias passando debaixo do nosso barco. Não preciso dizer que uma baleia dessas é duas, três vezes maior que o pobre do StartMeUp. Mas isso é apenas um detalhe que passa totalmente despercebido! O primeiro intuito é ver a cena, registrar na cabeça, agradecer a Deus (tudo isso em segundos), enquadrar a “máquina de tirar retrato” e clicar essa beleza gigantesca. Logo depois, foram aparecendo mais azuis à nossa volta. Toda vez que aparecia uma, torcíamos para que mostrasse uma nadadeira, barbatana ou calda! Ficamos ali por quatro horas batendo papo, tomando umas cervejinhas e tirando fotos. No final, já estávamos apostando o que a baleia iria mostrar para nós! Era um exibicionismo aquático freneticamente enlouquecido!

Contamos em torno de 30 baleias. A essas alturas, já não estávamos mais sozinhos, outros barcos e até caiaques e “paddle-boarders” estavam, como nós, expectadores de um cenário grandiosamente fantástico. A cada calda ou nadadeira mostrada se ouviam gritos, aplausos e “uhus”… o Pacífico virou uma festa!!

Ao cair o pôr do sol, rumamos em direção a nossa marina. Voltamos em silêncio, curtindo o reflexo alaranjado na água e relembrando cada momento passado naquele pontinho do Pacífico.

Atracamos, celebramos e partimos, cada um para a sua casa.

No dia seguinte, recebo uma ligação do Phil:

- Cara, não consigo tirar aquelas baleias da minha cabeça! Foi um dos dias mais loucos da minha vida! Acho que teve uma que olhou para mim! Pude ver os olhos dela, será que isso quer dizer boa sorte?! Foi nota dez! Valeu!

Respondi ao Phil que também tive a mesma sensação e que aquelas imagens estariam em nossas cabeças por toda a vida… e que a próxima vez, em vez de me ligar, que me enviasse um SMS. Mas não pude concluir a minha frase, pois a ligação “caiu”!

Na real, acho que ele fez que não entendeu e desligou o aparelho.