6 de novembro de 2013

Canoagem

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REMAR É PRECISO!

Texto Ana Karina Belegantt :: Fotos João Paulo Lucena

Após remar 55 km em 6h15min pelo Rio São Francisco, em plena divisa dos estados da Bahia, de Sergipe, de Pernambuco e de Alagoas, o paulista bicampeão mundial de paracanoagem Fernando Fernandes de Pádua chegou em segundo lugar na classificação geral da 3ª Bahia Maratona de Canoagem. Limites extremos, força de vontade, superação dos medos e obstáculos… Dor, muita dor, até não mais aguentar, mesclada com o prazer de poder remar…  Ex-modelo, ex-Big Brother Brasil, ex-lutador de boxe, ex-jogador de futebol. Hoje, aos 30 anos, há apenas dois anos remando, ele já é um exemplo para aqueles que perderam algum membro. Com muitas risadas e histórias emocionantes, batemos um papo bem descontraído com o futuro canoísta dos Jogos Paraolímpicosdo Rio de Janeiro de 2016.

Fernando, como você “entrou” na canoagem?

Como entrei? Ah, [foi] a canoagem que entrou em mim (risos). Na verdade, eu conheci a modalidade logo após me acidentar, no hospital de reabilitação Sarah Kubitschek. Lá eu comecei a ver o esporte adaptado como uma forma de voltar à vida social, de voltar a trabalhar, de viver de algo que sempre vivi: o esporte. Só que antes eu lutava boxe e já cheguei a jogar futebol profissional, mas sempre vivi do esporte.

Então, você queria fazer algo como o quê?

Que me desse prazer e também condições de me sentir capaz novamente. Aí eu corri a São Silvestre de cadeira, joguei basquete, experimentei muitas coisas, mas na hora que eu sentei no caiaque foi que me despertou. Sentei e…

O que você sentiu?

Senti um “cutucãozinho” de Deus dizendo “Meu filho, é isso para você” (risos). Readquiri uma sensação de liberdade muito grande, que a cadeira de rodas tira, e, mais que isso, foi a sensação de capacidade, porque eu sempre fui muito competitivo, sempre gostei de desafios. A canoagem me deu condições que nenhum esporte adaptado oferece, que é a de estar de igual para igual com quem tem ou não uma lesão. Se você reparar, todo esporte adaptado dá uma limitação entre aspas, mesmo oferecendo uma certa liberdade. Se você for jogar basquete, por exemplo, você tem que sentar numa cadeira enquanto outra pessoa está em pé. Não passava a sensação de fazer da forma que eu gosto, que eu queria…

Sim, vai ter sempre um diferencial…

Claro, sempre diferente, justamente. E também a canoagem me dá muito prazer! Um prazer de estar na água, no meio da natureza… A cadeira de rodas tira de você esse contato com a natureza. Eu sempre gostei de praia, de correr na areia, de mergulhar, e não é a mesma coisa. Nós estamos aqui numa areia, mas eu estou travado. Como vou para o meio do mato? Não dá! Agora, quando eu estou no caiaque, eu consigo tudo isso! Eu vou para dentro do mar, do rio, faço minha prova e meus treinos diários…

Sua especialidade são os 200 metros?

Sim, os 200 de velocidade, então essa liberdade é que me dá o prazer!

E para você, enfrentar uma prova como esta de 55 km, serve para quê? Tecnicamente ela melhora seu desenvolvimento, ou é mais pelo prazer de estar num ambiente totalmente diferente e inóspito competindo com atletas de alto nível?

É para testar meu limite mental, porque o físico vai ser abatido, isso é certo. O cara mais preparado vai chegar aqui, depois dos 55 km, quebrado! Então eu quis rever como a minha mente iria lidar com meu corpo. Depois da lesão, eu passei a não sentir nada da cintura para baixo. A musculatura das pernas, os glúteos, eu não sinto. São esses músculos que dão o equilíbrio no seu corpo para estar no caiaque. Então, eu estou sentando e sobrecarregando minha lombar e meu abdômen, por isso meu esforço é dobrado.

E os pés também comandam a direção do leme no caiaque. Como você compensa essa falta?

Pois é, meu leme é o abdômen (risos). Quando eu pego uma ondulação e sou jogado, eu tenho que controlar da cintura para cima. Então, eu quis mesmo testar como minha mente ia se desenvolver em função do corpo. Na verdade, eu pensei assim: aconteceu uma lesão comigo? Ok! Eu sempre gostei de experimentar, principalmente no esporte. Se vou fazer um treino de musculação, nunca faço o padrão ou o á-bê-cê de uma academia. Gosto de ver qual é a minha necessidade. Se estava lutando boxe, minha necessidade era fazer movimentos parecidos com os do boxe, para desenvolver habilidade naquilo que eu preciso. E quando eu me lesionei, em vez de ver isso como um problema, eu vi como “beleza, como vou fazer dessa forma? Como vou lidar com isso?”. Entendeu? Isso é o que me dá prazer. É claro que eu gostaria de estar andando, óbvio, mas esse desafio me dá prazer. Esse teste de fazer de uma forma que ninguém nunca fez ou poucos fizeram…

Se você estivesse andando, será que teria conhecido a canoagem?

Não, claro que não!

Então, que bom, graças a Deus que aconteceu isso com você (risos)!

Claro, mas o “se” não existe! Se você pensar no “se”, vai voltar em tantas coisas na sua vida que é de ficar maluco… Uma vez falei para meu treinador: “Pô Paulinho, se tivesse conhecido a canoagem antes, talvez eu poderia  chegar num patamar olímpico”. Aí ele falou: “O Se não existe, a hora é agora! Você quer um olímpico, vai atrás, da sua forma. Se conseguirá, não sabe. Só vai saber testando. Sua loucura, quem alimenta é você. Você acha que pode? Vai atrás. De cem pessoas, 99 vão falar que não. Se sua mente estiver forte para falar que sim…”.

E se você for esse um “sim”…

Esse um “sim” ninguém derruba! Cara, minha confiança cresceu tanto de achar que eu posso, de me ver forte, de buscar novas formas… Tenho uma frase na parede do meu quarto que eu rabisquei de canetinha que fala assim: “E por não saber que era impossível, ele foi lá e fez”.

O impossível é algo que vai acordo com a realidade de cada um.

Exatamente! São as pessoas que colocam como impossível. Se você vive num mundo fechado, fora de informações, você só faz o que acha que pode (risos).

Puxa, bem legal, Fernando, porque todo mundo gosta de colocar barreiras, limites, impossibilidades do tipo não consigo, não vou, não posso…

Então! Na verdade não é você que coloca os limites, os outros é que colocam. É claro que tem o limite do corpo humano, mas depois você vai quebrando os limites.

E você está aqui mostrando que não é o físico o limite…

Justamente. É acreditar em você e “vai embora”!

Existe algum limite na canoagem? Qual a barreira no esporte? Claro que, se há lesão nos braços, não tem como remar, mas no seu caso há algum impedimento?

Olha, eu achava que tinha impedimento até ver um cara remando apenas com um braço no Campeonato Mundial de Paracanoagem. Remou só com um, e aí? (risos) A gente tem que definir duas coisas: uma é o esporte competitivo, olímpico, paraolímpico…

Aquele que visa resultados…

Sim, resultados, regras. Quem não estiver nessa regra provavelmente não vai evoluir. Outra coisa é você querer fazer da sua forma. Se você quer vir aqui e completar os 55 km, você vem e completa do jeito que for. Se você não tem os dois braços, você senta e faz uma adaptação para suas pernas e rema com os pés. As pessoas que têm lesões mais altas que a minha me dizem: “Eu queria fazer paracanoagem, mas a minha lesão não chega perto das outras lesões”. Então eu falo exatamente isto: cada esporte tem a sua regra e é adequado para cada tipo de lesão. Eu não posso jogar rugby adaptado (gostaria muito), porque é só para quem tem lesão alta.

Quando uma lesão é classificada como alta?

Para quem tem lesão acima da cervical. Quanto mais próxima ao cérebro, a lesão é chamada de alta, e quanto mais distante, é a baixa. No meu caso é baixa. Então, cada modalidade de esporte tem suas regras. Se você quer esporte competitivo, você tem que tentar se enquadrar, e não bater de frente, ou faz dessa forma como hoje, remando por prazer. A canoagem é prazerosa para mim justamente por isto: eu posso praticar com as regras e os comportamentos de competições e posso fazer aqui da minha própria forma!

Entrevistamos o Fernando Fernandes no Cânion do Rio São Francisco, GPS S9º 24′ 22″ e W38º 12′ 53″, na cidade de Paulo Afonso/BA. A conversa aconteceu durante as gravações do Programa Adrenalina, temporada 2012, que tem estreia nacional marcada para maio de 2012. O treinador e amigo pessoal de Fernando é Paulo Barbosa, que o acompanha em todas as competições.

Saiba mais sobre Fernando Fernandes em www.fernandofernandeslife.com.

Saiba mais sobre a repórter Ana Karina Belegantt em www.guriaadrenalina.wordpress.com, e sobre o fotógrafo João Paulo Lucena em www.terra-australis-br.blogspot.com.br.

Apoios: AKBelegantt Comunicação Esportiva, Deuter, Mormaii Óculos, Mormaii Saúde e Outex.

Programa Adrenalina (canal Futura/TV Globo internacional)

www.adrenalinatv.com.br

Horários: 4ªf às 21h, domingos às 4h30 e 17h30, e 2ªf às 20h.