7 de abril de 2015

Duathlon. Paixão à primeira vista!

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Por: Andréa Spalding / Foto: ChristianoCardoso(Estúdio) e Arquivo Pessoal(Externas/Competição)   //

A descoberta desse esporte foi paixão à primeira vista.

Praticante dos mais diversos esportes desde criança, Débora Finger, 27 anos, natural de Estância Velha, no interior gaúcho, e residente em Novo Hamburgo (RS), descobriu somente em 2012 a modalidade esportiva pela qual se apaixonou, e inclusive já participou, nesse ano, de um campeonato mundial: o duathlon. A atleta foi a única gaúcha a ter participado da competição, na Espanha, e com pouco tempo de treino, já que começou no esporte há apenas dois anos.

“Já corria desde 2005 e tinha comprado uma mountain bike fazia pouco tempo. Uma amiga me perguntou se eu ia participar do duathlon que teria em Sapiranga. Duathlon? Que bicho é esse? Eu nem sabia que o esporte existia. Fiz a primeira prova na categoria iniciante (distâncias menores) e fiquei em segundo lugar. Pódio já de cara!”

Ainda na categoria iniciante, Débora venceu todas as provas do campeonato estadual de que participou. “Estava preparada para, no ano seguinte, fazer as distâncias de gente grande”, evidencia ela. Em dezembro de 2012, na última prova do ano, não havia categoria iniciante. Se a atleta quisesse participar da prova, teria que fazer com o dobro das distâncias a que estava acostumada. “Fiz e fiquei em quarto na elite! Não subi no pódio porque, como a prova era nacional, só se premia até o terceiro lugar. Mesmo assim, foi demais.”

Depois desse feito, foi convidada para fazer parte da equipe GuSch, de São Leopoldo (RS). Em 2013, ela passou a participar do campeonato estadual pela GuSch. “Fiz muitos amigos especiais, ganhei companhia para os treinos e ainda fui vice-campeã estadual de duathlon. Um ano e tanto!”

Trajetória no mundo esportivo

Débora confessa que sempre sonhou em fazer triathlon, mas como não nadava, achava que simplesmente o esporte não era para ela. “Quando eu descobri que o duathlon existia, descobri o meu esporte, depois de pular por todas as modalidades esportivas possíveis e imagináveis.” Quando criança ela praticou balé por três anos. Depois, jogou futebol até os 14 anos, e afirma que era boa jogadora. Defendia, na época, as cores do Novo Hamburgo e, inclusive, havia passado num teste no Grêmio. Em seguida, o vôlei tomou conta. Treinou no Sinodal e depois na Unisinos, ambos em São Leopoldo, por muitos anos. Em 2005, a atleta foi morar no exterior, no Colorado (EUA), e começou no mundo da corrida. Além disso, também praticou esportes diferentes e bacanas. Esquiava, fazia rock climbing, ice climbing, hiking, jogava tênis e paddle. Depois de voltar para o Brasil, o vôlei ainda era a grande paixão. Mas uma lesão no punho a fez parar. “Foi aí que o duathlon surgiu!”, diz ela com muita animação.

Ascensão no duathlon

A atleta afirma que a evolução no esporte foi realmente muito rápida. “Mas, por favor, não pensem que eu sou fenomenal. No estado existem outras duatletas/triatletas melhores do que eu. Na realidade, poucas mulheres praticam o esporte, por isso acaba se tornando relativamente fácil se destacar nele.” Porém, Débora admite que tem uma parcela de contribuição nisso, pois sempre foi muito focada e dedicada naquilo que se propõe a fazer. “Nunca admiti perder um treino para a preguiça. Enquanto alguns atletas vivem fazendo ‘mimimi’, eu gosto da função toda: rotina de treinos, dorzinha que vem depois e outras coisas.” Ela diz que treinou muito para o campeonato brasileiro, que era a etapa única que classificaria para o mundial, e deu tudo certo. “Tinha recém comprado minha bike e estava superempolgada. Fiz o quinto melhor pedal entre as mulheres, e só isso já é motivo de muito orgulho para mim.”

Treinamento e rotina atual 

Os treinos de Débora são planejados de acordo com as competições de que pretende participar. “Minha coach, Silvia Paz, elabora minha planilha a cada semana, de acordo com minha disponibilidade de horários e compromissos profissionais.” Geralmente a atleta tem apenas um dia na semana sem treinamento. Os treinos de corrida ocorrem quatro vezes por semana: pista, que faz no Complexo Esportivo da Unisinos; longo e regenerativo, que realiza nas ruas próximas a sua casa; e transição, geralmente praticado no Sítio da Bike, em Lomba Grande. Nas outras três vezes por semana, realiza os treinos de bike, a maioria em Lomba Grande, alguns no Polo Petroquímico ou, eventualmente, em casa, no rolo.

Além do ciclismo e da corrida, também tem treinos funcionais, de uma a duas vezes na semana, que são feitos na academia Quantum by Senior, em Porto Alegre, e natação, duas vezes na semana, na academia Corpo Ativo, em São Leopoldo. “Deu para notar que, embora tenha um dia off, tem dias em que o treinamento é duplo, ou seja, nado e corro, ou nado e pedalo etc.” A duração de cada treino, conta ela, varia de acordo com o objetivo do treinamento.

Débora é nutricionista e trabalha em uma academia em Porto Alegre. Também tem pacientes na região do Vale dos Sinos. “Assim, preciso conciliar a rotina profissional com os treinos. Tarefa nada fácil, confesso, mas não estou sozinha nessa. Todos os atletas amadores convivem com essa realidade.” A atleta afirma que o fato de ela trabalhar com o esporte facilita um pouco as coisas. “Meus treinos de funcional ocorrem na mesma academia em que trabalho, por exemplo. Em agosto próximo, inicio meu mestrado, na ESEF-UFRGS. Com isso, meus horários e rotina devem mudar um pouco. Porém, estou bem ansiosa para esse novo momento da minha vida.”

Alimentação e suplementação

O fato de Débora ser nutricionista propicia que ela mesma cuide de sua alimentação e da suplementação que utiliza. “Sobre suplementação, sou bem conservadora, uso apenas o que eu realmente preciso e o que eu sei que pode me trazer bom resultado. No momento, utilizo apenas waxy maize; maltodextrina ou carb up em pó, como fonte ‘líquida’ de carboidrato; carboidrato em gel; além de cápsulas de ômega 3 e, eventualmente, Whey Protein.”

Provas marcantes 

A atleta avalia que todas as provas são marcantes. Por isso, esse esporte é fascinante, comenta. “A evolução é rápida demais, e a cada nova competição você melhora seus tempos.” Ela enfatiza que há, sim, algumas provas específicas que marcam mais, de alguma forma. Neste ano, por exemplo, Débora fez sua primeira prova longa, em Osório, no litoral no RS. “Era um triathlon, e minha amiga Flávia Kirsch nadou para mim. Pedalei 60 km e corri outros 15 km. Foi um dia incrível, porque eu acordei não me sentindo muito bem. Tenho labirintite e cheguei a pensar em não fazer a prova, com medo de ter uma crise, o que seria perigosíssimo. Mas resolvi não deixar meu medo me parar. Fiz a prova, tive muitas bolhas nos pés e, mesmo assim, não desisti. Cruzei a linha de chegada muito emocionada.” A esportista confessa que as provas mais longas sempre mexem com ela. “Eu adoro correr meia maratona por isso. Sempre aprendo alguma coisa, cada prova é um grande crescimento pessoal.”

Preparo físico do atleta de duathlon 

De acordo com Débora, o duathlon, assim como o triathlon, exige um preparo aeróbico muito bom. “É um esporte de alta intensidade, e sempre se trabalha no limite.” Ela afirma que quem faz triathlon e duathlon é enfático em dizer que o duathlon é muito mais duro. “É que é a mesma musculatura sendo utilizada, o que dificulta as coisas. Os corredores de origem se dão bem na primeira corrida, mas ‘morrem’ na bike. Já aqueles que iniciaram no ciclismo sofrem com a jornada dupla de corrida, principalmente na última.”

A esportista evidencia que o condicionamento físico deve ser muito bom. “Grande parte dos treinos é feita em alta intensidade; não há um grande gasto de gordura, o glicogênio muscular é a fonte primordial de energia.” Por isso, explica, existem, sim, muitos duatletas gordinhos. “Isso não significa que não sejam bons, mas, obviamente, aqueles que estão em dia com a balança acabam sendo mais rápidos.”

Dificuldades desse esporte

A esportista destaca que treinar em alto nível sempre é complicado, pois não há uma boa estrutura para isso na região. “Treinos de ciclismo ficam restritos a cidades de interior, como Lomba Grande, ou a lugares com baixo fluxo de veículos, como o Polo Petroquímico em finais de semana.” Ela avalia que asfalto ruim, buracos, falta de sinalização nas estradas, falta de consciência dos motoristas, perigo de assalto, entre outras coisas, prejudicam a frequência dos treinos. “Procuramos sempre treinar em grupos por esse motivo. Rodovias novas, como a Rodovia do Parque, poderiam ser boas opções, mas, em função da sujeira da via, é extremamente comum furar o pneu.”

Dessa forma, diz ela, os treinos de corrida muitas vezes ocorrem nas ruas próximas à residência de cada atleta. “Faltam locais específicos para isso. No inverno, temos outro grande problema que é o clima do Rio Grande do Sul. Chuvisco, serração, dias frios e úmidos não são os melhores parceiros de treinamento.” Ela comenta ainda que o alto preço dos equipamentos é outro fator que limita a evolução dos atletas. “Nada é barato quando se fala em bicicletas e acessórios.”

Dedicação

“Tive de abdicar de muita coisa, eu diria! A rotina intensa de treinamentos me afasta de muitos amigos que gostaria de ver mais frequentemente.” Débora ressalta que, quando treina cedo da manhã, procura não dormir muito tarde na noite anterior. “Como temos treinos quase todos os sábado de manhã, as sextas costumam ser calmas. Muitas vezes, a vontade de sair com os amigos e tomar uma cervejinha é maior, mas sei que essa é uma escolha que eu fiz, e sei que eles me entendem.” A esportista também cuida bastante da alimentação, principalmente nos momentos pré-treino. Isso significa que não pode comer o que ela simplesmente tiver a fim antes de treinar.

Vida pessoal

“Como atleta e nutricionista esportiva, não preciso nem dizer que eu vivo e respiro o esporte. E sou muito feliz por isso.” Débora diz que sempre cuidou muito de sua alimentação, bem como buscou um estilo de vida saudável e equilibrado, sem ‘neuras’ e com muito prazer. Já praticou todos os esportes possíveis e imagináveis. “Nunca fui uma nutricionista restritiva. Eu acredito que o esporte é maravilhoso por isso. Permite cometer alguns ‘pecados’ de vez em quando. E acho que tudo tem sua hora.” Ela enfatiza que, quando o atleta treina forte, pode e deve se lambuzar com um delicioso brownie com sorvete de vez em quando. Ainda pode e deve, diz ela, beber uma saborosa cerveja artesanal quando sentir vontade. “Eu sou a favor da alimentação saudável, mas saudável com sabor. O que é saudável mas não tem sabor algum não me atrai. A alimentação é um dos grandes prazeres do homem e deve ser encarada como tal.” Débora conta que adora cozinhar, misturar sabores, texturas e temperos. “Uma noite perfeita? Cozinhar para os amigos, tomando um bom vinho e dando boas gargalhadas. Tenho um blog, com uma grande amiga, no qual falamos sobre gastronomia, nutrição esportiva e dicas gerais. Recomendo leitura: Desbananando Teorias.”

A esportista confessa ser uma pessoa que não para nunca. “Adoro ler, ver filmes, estar com a minha família e amigos, tomar um ‘chima’ num parque em dias ensolarados, sendo que viajar é um grande hobby.” Débora já morou nos Estados Unidos e na Austrália, e se tivesse condições para tal, afirma, viajaria e conheceria um lugar novo a cada fim de semestre.

“Também sou uma pessoa muito estudiosa. Gosto de me manter atualizada nos assuntos pertinentes à minha profissão. Formei-me no ano passado pela Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre e estou iniciando meu mestrado em Ciências do Movimento Humano, em agosto.”

O Mundial

Débora diz que foi a prova mais espetacular que já teve o prazer de fazer. Seus resultados oficiais mostraram que baixou seus tempos pessoais e, melhor ainda que isso, ficou em 16º lugar, entre 24 competidoras, na categoria de idade dela. “O nível da competição estava altíssimo, e eu apenas torcia para não ter sido a última na categoria.” Ela diz que era muita gente fazendo a prova, 1.500 inscritos, e não tinha como, e nem queria, ficar controlando quem eram suas adversárias. “Era meu primeiro mundial, e pretendia dar o meu máximo, mas sem me esquecer de aproveitar cada quilômetro do percurso. A corrida era demais!”

O percurso de 2,5 km foi feito nas ruelas do Centro Histórico de Pontevedra (Espanha), e por todo o caminho centenas de pessoas vibravam a cada vez que os competidores passavam. “Eles diziam ‘vai Brasil!’, ‘Go Brazil!’, ‘Vamos brasileña!’.” Débora destaca que foram trajetos duríssimos, principalmente o de bike, que tinha quase 7 km seguidos de uma subida interminável. Na descida, relembra ela, o vento lateral não deixava os atletas descerem muito rápido. “O momento mais marcante aconteceu bem no final. Estava na minha última volta de corrida, foram seis no total, e já no meu limite, com muita dor no corpo. Passei por um grupo enorme de espectadores e todos gritaram o meu nome. Logo à frente, um senhor começa a cantarolar a ‘musiquinha do Senna’.” A atleta rememorou que, dali em diante, foram 500 metros chorando, agradecendo a Deus por ter amigos tão maravilhosos e por ter a saúde necessária para viver essa que foi a melhor experiência de sua vida. “Cruzei a linha de chegada erguendo a bandeira verde e amarela, orgulhosa do que havia feito e feliz como nunca!”

Patrocinadores

A esportista ressalta que é dificílimo um atleta conseguir patrocínio. “Eu só consegui porque estava indo para uma prova internacional, de grande repercussão, que foi o Mundial deste ano, na Espanha. E também porque mobilizei e tive a ajuda de muitos amigos meus.” Ela afirma que infelizmente o Brasil ainda é um país de um esporte só. “Todo apoio financeiro vai para o futebol masculino. Os outros atletas têm de se virar sozinhos.”

Hoje a atleta conta com a Skechers, que fornece a ela todos os tênis para treinamentos e competições. É o único patrocinador fixo de Débora. “Espero que, com meu resultado no Mundial, consiga o apoio permanente de outras empresas. Afinal de contas, o Mundial de 2015 está logo aí (risos).” A competição internacional do ano que vem será em outubro, em Adelaide, na Austrália, e ela já está automaticamente classificada, em razão do resultado que fez neste ano.

Competições

Vice-campeã estadual de duathlon, em 2013

Campeã estadual de triathlon – categoria Revezamento, em 2013

Campeã de triathlon 100k Canela – categoria Revezamento, em 2013

Terceira colocada Elite Feminina H Lar São Leo – Run, em 2013

Primeiro lugar quartetos femininos Volta ao Lago Negro/Gramado, em 2013

Vice-campeã brasileira de duathlon – categoria 25-29 anos, em 2014

Atual segunda colocada no ranking brasileiro de duathlon – categoria 25-29 anos

Campeã de triathlon Longa Distância – Osório – categoria Revezamento, em 2014

Primeiro lugar na categoria 25-29 anos e 11º lugar geral na Poa Night Run, em 2014

Melhor Meia Maratona 1:52:38 – Asics Golden Four, em 2014

Melhor 10 km 47:33 – Track & Field Moinhos, em 2014