25 de novembro de 2013

Filhas do Mar

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Texto: Laís Bozzetto //  Fotos: Gabriela Zorer // 

 

Iemanjá, Rainha do Mar. Seu grande valor é acolher a todos que lhe pedem ajuda, sem julgar nem minimizar a dor de ninguém. Isso lhe vale mais um título, o de deusa da compaixão, do perdão e do amor incondicional. É no ciclo incansável do mar, de renovação, energia e esperança, que umas meninas encontram o prazer de brincar sobre as ondas. O Filhas do Mar é um grupo de surfistas e simpatizantes que promove eventos em prol da união do surfe feminino, de um estilo de vida saudável e da conscientização ambiental. Além disso, esbanjam a beleza natural que o bech lifestyle proporciona a quem curte a vida nessa pegada. Se Iemanjá significa mãe dos filhos-peixe e suas filhas sabem seduzir e encantar com o encanto de uma sereia, elas estão no caminho certo.

Surfe e mulheres. Tá aí uma boa combinação. São como as lendas do fundo do mar e as sereias. As surfistas deixam o esporte mais colorido, mais leve, perfumam o outside e soltam a graça nas manobras. Quem concorda e acrescenta é a estudante de Jornalismo e uma das organizadoras do Filhas do Mar Ingrid Decker: “Sempre brinco que as surfistas são supermulheres. Entram no mar, seja de biquíni, seja de “long john”, se descabelam nas vacas, se divertem nas ondas e, aprendendo ou quebrando a vala, elas cumprem sua missão. Saem de cabeça feita, vestem sua roupa, passam o creminho e escovam os cabelos, voltando a sua identidade! Trocando as pranchas (caudas) pelas pernas novamente”, diverte-se.

É com esse clima de descontração, paz e amor que surgiu o grupo de surfistas Filhas do Mar. Criado em 2011, o grupo teve o seu primeiro evento na Praia da Ferrugem, em Santa Catarina, onde foi possível dar o “start” desse projeto. Naquela ocasião, cerca de 70 gurias de diferentes partes do Brasil se juntaram para entrar na mesma positiva vibração: “Filha do Mar é toda a mulher que se identifica com nosso espírito de confraternização e harmonia com a natureza. Todas são bem-vindas!”.

Além da Ingrid, a diretoria conta com as fundadoras, a terapeuta holística Claudia Gianessi e a estudante de arquitetura Camila Endres, além da ortodontista Fernanda Cíceri e da professora de ioga Fernanda Junqueira. A organização é desenvolvida em reuniões que normalmente acontecem pela internet, tendo em vista a correria de cada uma no dia a dia. Os encontros, que são anuais, têm divulgação nas redes sociais ou no famoso “boca a boca”.  Aulas de ioga, confecção de coroas de flores, mesa de frutas, oficinas de música e “hula-hula”, corrida, limpeza da praia, cabo de guerra (que elas preferem chamar de cabo de paz), saudação a Iemanjá… E claro, o free surf da mulherada: “Nos eventos, procuramos fazer um círculo dentro do mar para agradecer. No último Filhas do Mar, aproveitamos esse momento para orar por todos os surfistas que se foram, incluindo a causa do surfe seguro. Também rolou uma coisa mágica. O mar estava irregular, mas quando começamos a saudação a Iemanjá, parece que “a oração varou o maral e o vento virou de terral”, exatamente como na música. Entrou um vento sul que nos trouxe altas ondas!”, lembra Ingrid Decker.

“Surf Seguro”, outra bandeira levantada pelas meninas, é um movimento do Instituto Renata Grechinski (ONG Parceiros do Mar), que teve um início triste. O impulso para a criação surgiu de uma fatalidade no mar. Ingrid conta que Renata era uma jovem recém-formada no curso de Psicologia e, enquanto surfava na Praia de Coroados (divisa entre Paraná e Santa Catarina), ficou presa em um artefato de pesca clandestino e faleceu. Coincidência ou não, isso aconteceu exatamente no dia de Iemanjá, dois de fevereiro do ano passado.

Com a família inconformada, foi preciso reunir forças para investigar a situação. Acabaram descobrindo uma série de irregularidades e, assim, resolveram criar uma fanpage no Facebook a fim de divulgar as notícias da ONG e transmitir o slogan de “uma onda de amor pela vida”: “Os Parceiros do Mar lutam pela aprovação de dois projetos de lei (um estadual e um federal), que estabelecem o zoneamento aquático pelo fim das mortes em redes de pesca clandestinas. No momento, eles possuem materiais (cartilha Surf Seguro para escolinhas de surfe) e folder informativo de segurança no mar, revisados pelo Corpo de Bombeiros de Guaratuba e pela Polícia Militar Ambiental do Paraná. Além disso, já foi feito um primeiro teste para o Mutirão de Limpeza do Mar, projeto também desenvolvido em parceria e a convite desses dois órgãos, que consiste em um “arrastão” feito por meio de uma espécie de rede gigante, que vai retirando objetos e artefatos que possam ser prejudiciais para a biodiversidade, pesca, surfistas e banhistas”, explica.

Participação na telinha: Multishow

Valorizar o surfe feminino. Essa é outra causa apoiada pelas meninas. Mesmo com pouco espaço para as mulheres e com baixos investimentos no esporte, é possível ver o esforço de algumas atletas para conquistar seus sonhos e mostrar o talento sobre a prancha: “O esporte por si só já é uma ferramenta de transformação social, e a grande sacada será quando o Estado começar a investir realmente em políticas públicas para eventos esportivos”, acredita Ingrid.

Segundo ela, há muitas mulheres com potencial no surfe que estão se unindo cada vez mais. Ingrid confia que as redes sociais estão contribuindo para isso: “Tanto na divulgação quanto na rede de contatos que se abre via internet.  Por exemplo, hoje em dia eu vejo amigas nordestinas, que conheci em Noronha, viajando com amigas gaúchas, que conheci na Praia do Rosa, pelo litoral de São Paulo, com mais conhecidos de outros picos! Com o tempo, essa união aumenta. Fazem vídeos, imagens e se “autopromovem”, gerando também uma democratização do surfe. Essa divulgação, tanto de amadoras quanto de profissionais, faz com que aumente uma necessidade pelo diferencial, por atletas melhores e pelo aprimoramento do esporte”.

Nessa perspectiva, foi possível expandir a ideia e a ação do Filhas do Mar via telinha. Durante o programa Férias no Rosa, reality show produzido pelo canal Multishow, foi realizada uma edição extra do evento em parceria com a equipe do restaurante e bar Swell. A participação contou com as mesmas atividades realizadas nas demais edições, mas apresentou às apresentadoras e a uma gama maior de pessoas (e agora também telespectadores) a ideia de conscientização de limpeza da praia, saúde e bem-estar. Um temporal inesperado ao final do evento impediu o surfe da mulherada, mas o saldo foi positivo.

O próximo evento do Filhas do Mar ainda não tem data, mas a previsão é de que aconteça a partir do segundo semestre de 2013. Se você se interessou pelo grupo, pelas causas do Surf Seguro ou quer assistir ao episódio do programa Férias no Rosa, basta acessar os links abaixo:

 

Filhas do Mar: http://www.facebook.com/pages/Filhas-do-Mar/484943008198285?fref=ts

Surf Seguro: http://www.facebook.com/SurfSeguro?fref=ts

Petição pelo fim das mortes em redes de pesca clandestinas: http://www.avaaz.org/po/petition/Proibicao_de_redes_de_pesca_em_area_de_banhistas_1/

Site do programa “Férias no Rosa”:

http://multishow.globo.com/Ferias-No-Rosa/index.shtml