HELI-SKIING

Por Marcelo Fernandes   //

 

Fevereiro de 2013. Verão. Depois de um dia de mágica combinação de água clara e quente, sol e boas ondas – rara nas temporadas de Atlântida –, chego em casa e o celular indica o sinal de mensagem de voz, em inglês, de um grande amigo, Ted Allsopp:

 – E aí irmão! Estou ligando para fazer um convite. É um convite que já há algum tempo quero fazer, e decidi que este é o ano. Quero que você venha fazer heli-esqui com a gente aqui na Northern Escape, tudo pago, inclusive passagens aéreas desde o Brasil. Nosso convidado. Meu convidado pessoal, na verdade. Pode ser semana que vem, pode ser daqui a duas semanas, pode ser em março. Olha a tua agenda e me liga de volta para me dizer quando. Eu sei que você vai ligar em seguida… Abraço!

Ted é um dos sócios de uma operação de heli-skiing em Terrace, no norte do Canadá. Nossa amizade já perdura há mais de dez anos, quando nos conhecemos em Portillo, no Chile, e desde então ele, minha esposa e eu já fizemos 18 viagens de aventura juntos.

Obviamente a agitação e a ansiedade substituíram de imediato a paz que as endorfinas do surfe tinham produzido. Dessa vez, no entanto, o convite não seria extensivo à Miriam. Cautelosamente, antes de avisar do que se tratava, deixei que ela ouvisse o recado, na esperança de que o entusiasmo do Ted a sensibilizasse. Não deu certo, e o olhar que tive em retorno, antes mesmo do término da mensagem, foi de reprovação e certa irritação.

Com razão, ela argumentou que tínhamos nossas filhas, Martina, com pouco mais de dois anos de idade, e Elisa recém-nascida, que estavam dando bastante trabalho em casa. Além disso, meu passaporte estava vencido, assim como estavam expirados os vistos americano (que seria necessário para uma escala nos Estados Unidos) e canadense.

Mas a semente do mal já havia sido plantada, e ambos sabíamos que iria germinar rapidamente. Durante a semana seguinte, ainda sem nenhuma definição, busquei informações sobre renovação de passaporte e documentos. No fim de semana, de volta à praia, acordamos as regras básicas para a viagem. Em especial, a duração. Eu teria, além do tempo despendido em trajeto, três dias para treino em Whistler, e outros cinco dias em Terrace.

As passagens aéreas chegaram por e-mail, e outro amigo, Bruce Fair, me recepcionaria em Vancouver para os dias de treino em Whistler. No dia 24 de março, eu embarcava no voo Air Canada 0091, São Paulo – Toronto, sem escalas (não houve tempo para renovar o visto americano).

Whistler é sempre uma grande experiência, com seus 33 km2 de montanha “esquiáveis”. Mas, dessa vez, seria apenas uma escala de treino para o destino final, Terrace, uma cidadezinha de 18 mil habitantes ao norte de Vancouver, próxima à fronteira americana do Alaska. É ali que opera a Northern Escape Heliskiing, com acesso a mais de 6 mil km2 de área selvagem esquiável, incluindo a parte alpina da montanha e o terreno de árvores mais abaixo. Seis mil quilômetros quadrados exclusivos para um grupo de 13 pessoas, por quatro dias.

No pequeno aeroporto de Terrace, encontrei Ted e seguimos para o alojamento – palavra que subestima muito as acomodações disponíveis. Chegamos depois do restante do grupo, então fui submetido a aulas particulares com o guia Yvan Sabourin, certificado pela ACMG (Association of Canadian Mountain Guides), com treinamento prático de uso dos avalanche transceivers e instruções de segurança envolvendo o helicóptero e potenciais situações de resgate.

Toda e qualquer autoconfiança que eu tinha conquistado nos três dias de treino em Whistler começou a se dissipar nesse momento, ouvindo Yvan falar de soterramentos, grupos de busca e mochilas com airbag. E eu nem tinha visto a montanha ainda!

Durante o jantar, conheci os demais membros do grupo. Ted e Dave, dois dos proprietários da área, com uma vida de experiência no esqui; Patrick Richard, ex-competidor de GS (Grand Slalom) que, após quebrar a perna em vários lugares em um acidente na pista, deixou o esqui profissional para ser… corredor de rally profissional; Max Riddle, também corredor de rally, filho de Dave; Remo e Kristen, instrutores respectivamente de snowboard e esqui, no Canadá e na Europa; e três italianos, Max, Alberto e Enric, que, embora não façam do esporte profissão, destinam 15 a 20 dias por ano para o heli-esqui ao redor do mundo. Eu, claramente, destoava do grupo. Não jantei muito bem na primeira noite, embora tenha compensado no vinho.

Na manhã seguinte, por volta das 7h, durante o briefing, John Forrest, sócio e chefe de operações, nos deu uma “ótima notícia”. O teto de nuvens estava baixo demais para o helicóptero nos levar até a parte mais alta da montanha, então iríamos voar do alojamento somente até a base dos snowcats, uma operação de backup mantida pela NEH para os dias “no chão”. Olhando em torno, o desapontamento era geral, então procurei esconder o meu alívio. Eu teria oportunidade de comparar meu nível de esqui com o restante do grupo na área mais baixa das árvores, antes de subir, se fosse o caso, para a parte alpina e mais íngreme da montanha.

Embarcados na cabine traseira do snowcat, com o alto barulho do motor, não havia conversa informal. Parecíamos um pequeno exército em missão secreta (suicida?) com nossos capacetes, goggles, mochilas com equipamentos de segurança e resgate e airbags, e os inevitáveis iPods.

Na primeira descida, superando conscientemente alguns limites, consegui acompanhar o grupo, apesar de nos perdermos de vista algumas vezes entre as árvores. No final da manhã, durante uma das descidas, ouvi gritos que à primeira vista soavam como entusiasmo, mas que mais próximos tive certeza de serem de dor. Um dos italianos, Alberto, rompeu os ligamentos do joelho ao atingir raízes de árvore logo abaixo da neve. Não havia meios de trazer o helicóptero para aquele ponto, e o snowcat ainda estava mais abaixo na montanha, fora de vista. Com os guias longe, mais abaixo, Ted e eu conseguimos levar Alberto até o snowcat, onde fomos informados de que o clima tinha melhorado no alpine e o helicóptero viria nos buscar ali. Enquanto Alberto retornava à base no snowcat, aguardamos o ronco das hélices que anunciaria o início de um dia espetacular.

O pouso na parte alta da montanha é cercado de cuidados com vento e rochas. Descer do helicóptero também exige cautela, pois os trenós de pouso afundam na neve, e a hélice fica bem mais baixa, com risco de decepar a cabeça de algum descuidado.

Além disso, tanto no pouso de embarque como no de desembarque, o grupo de esquiadores e guias fica sob as hélices do helicóptero, junto aos trenós de pouso. Ao contrário do pouso e da decolagem em chão firme, ninguém se afasta do helicóptero, pois se um vento de montanha complicar o piloto, o grupo é atingido apenas pelos trenós do corpo do helicóptero. O que, convenhamos, é muito melhor que ser fatiado pelas hélices.

Eu já tinha ouvido dizer que uma das melhores sensações em heli-esqui é quando o equipamento está todo desembarcado, o grupo em posição, e o helicóptero aumenta a rotação, causando um redemoinho espesso de neve com visibilidade zero, e de repente decola e se afasta. Só o que fica é o grupo, o silêncio da alta montanha e um visual de tirar o fôlego.

O que seguiu daí não dá para descrever em palavras. As fotos representam melhor a ideia, embora nem elas consigam passar a dimensão exata da sensação de flutuar montanha abaixo em uma camada de neve sem peso e sem atrito. E sem ruído. Poucas curvas são necessárias, mais para controlar um pouco a velocidade, e a regra é nunca passar à frente do guia, pois não existem pistas e não há marcações de rochas ou penhascos. O mais difícil foi acompanhar o grupo e não dar motivos para má vontade dos demais, pois quanto mais rápido chegássemos ao ponto de pick up, mais descidas poderíamos fazer no dia.

Com o tempo, a confiança foi voltando, e em algumas descidas foi possível até me aventurar por caminhos mais à esquerda ou à direita do guia, fora do contato visual, considerando que a graça do heli-esqui, além da alta montanha e do terreno íngreme, é justamente buscar longos trechos de neve virgem e fofa, e não esquiar em “ordem unida” ou “fila indiana” atrás do guia. Fazer o seu próprio caminho é da essência do heli-esqui.

No terceiro dia, chegamos a descer um trecho íngreme de pillows, que são grandes pedras formando uma espécie de escada, cobertas de neve mas com degraus de rocha aparente entre elas, e onde a descida é em saltos de uma pedra a outra, sempre amortecendo o impacto na neve acumulada sobre cada pedra (daí os pillows, ou “travesseiros” de neve).

À noite, jantares preparados por chef, acompanhados de bons vinhos e vídeos de esqui. O assunto, obviamente, era o esqui do dia e o que nos esperava na manhã seguinte, além das experiências de cada um em outras montanhas de outros países e continentes. A conversa terminava, por exaustão física, pelas 22h.

Ao final da estadia, o corpo já não respondia a comandos simples como “saia da cama” ou “pegue seus esquis do chão”. Apesar da sensação de flutuação e ausência de peso, o esforço para se manter no curso e lidar com a velocidade e a tensão na vigília por penhascos e pedras cobram um preço alto da condição física, especialmente se você for brasileiro e esquiar, no máximo, 15 a 20 dias por ano. De volta ao lar, tirei “férias” de exercícios físicos por quase dois meses, como recuperação.

A brincadeira não é barata. Por quatro dias de heli-esqui e hospedagem, em março, você paga aproximadamente 5.600 dólares. Salvo se você dispuser de recursos financeiros e períodos de férias de sobra, não é um programa para fazer todo ano. Por outro lado, se você tem experiência no esqui e adora adrenalina, não pode deixar de fazer heli-esqui ao menos uma vez na vida. E, claro, torça para não se viciar.

Procedimentos de segurança na operação com o helicóptero:

 

• Aproxime-se do helicóptero nas pegadas do guia, segurando seus esquis pela ponta, com a parte de trás arrastando no chão.

• Fique perto do nariz ao circundar o helicóptero para entrar.

• Fique atento a possíveis elevações do terreno na frente do helicóptero, pois os trenós podem estar soterrados ali. Você deve andar de cócoras nesse caso, para circundar o nariz do helicóptero.

• Ao entrar no helicóptero, não remova a neve de suas botas chutando o trenó de pouso, e sim batendo uma bota na outra.

• Use sempre três pontos de contato com o helicóptero ao entrar.

• Sendo o último a entrar, assegure-se de que todos os membros do grupo estão sentados com cintos de segurança afivelados, feche a porta e sinalize ao piloto o “ok”.

• Ao aguardar o pouso do helicóptero no local de “pick up”, permaneça calmo, antecipe situações de risco e posicione-se corretamente ao lado de onde os trenós irão tocar o chão.

• Enquanto aguarda no local de pouso, esteja dentro do campo visual do piloto durante todo o procedimento, pois você representa o maior fator de risco dele enquanto pousa na montanha.