6 de novembro de 2013

Invasão Aquática

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Texto & Fotos: Dudu Castro

Procura-se vivo ou morto!

Hoje em dia, não se fala em outra coisa nos Estados Unidos além de matar e exterminar o mais voraz peixe na região da costa sudeste americana, do Golfo do México e do Caribe. Falando assim, pensamos em grandes predadores como o tubarão ou a arraia, mas nesse caso o “grande” predador é um peixe que mede entre 30 cm e 40 cm, pesando em média 1,5 kg!

Quem seria o mais odiado vilão?

É o peixe-leão, mais conhecido nos EUA como red lionfish. Esse peixe é uma variedade de peixes marinhos venenosos dos gêneros pterois, pertencentes à família scorpaenidae. São predadores vorazes. Quando estão caçando, encurralam as presas com seus espinhos e, num movimento rápido, as engolem por inteiro. Eles são conhecidos por seus enormes espinhos dorsais e pela coloração listrada, de cores vermelha, laranja, preta ou branca. Vivem entre cinco e 10 anos e têm como habitat os corais.

Em 1992, o furacão Andrew arrasou um tanque de aquário na Flórida, acarretando uma fuga de algumas dezenas de peixes-leão para o Oceano Atlântico. Naquela época, nenhuma autoridade tomou interesse pelo fato. Um grande equívoco! Apenas na Carolina do Norte, densidades locais aumentaram 700% entre 2004 e 2008, de acordo com cientistas de centros nacionais da NOAA (National Oceanic and Atmospheric Administration ‒ agência federal americana que tem como principal foco as condições oceânicas e atmosféricas). A explicação para essa invasão tão rápida é a sua capacidade de reprodução; uma fêmea pode expelir entre 5.000 e 30.000 ovos, mais de uma vez ao ano. Esses ovos e as larvas recém-nascidas flutuam em correntes oceânicas por 25 a 40 dias. Uma vez que os filhotes são grandes o suficiente para nadar, deixam as correntes para se ocultarem entre corais e rochas, levando entre um ou dois anos para atingir a idade de reprodução. Outra razão para tal fenômeno é a falta de predadores. Como essa espécie de peixe é originária do sul do Oceano Pacífico e Oceano Índico, há poucos predadores no Atlântico que desafiam os venenosos espinhos do peixe-leão. Outra nova teoria (e ao mesmo tempo um grande mistério) é a falta de parasitas nesses peixes. Em outras espécies, os parasitas são um tipo de imposto que o peixe tem de pagar, pois, tendo parasitas em seu corpo, o peixe produz energia para equilibrar seu metabolismo. No caso do peixe-leão, não tendo parasitas, essa energia seria canalizada em crescimento e reprodução.

O impacto desse crescimento descontrolado é a capacidade de afetar permanentemente as comunidades de peixes dos recifes, desequilibrando todo um ecossistema. Como o peixe-leão não conta com um predador e ao mesmo tempo se alimenta de espécies que mantêm esse equilíbrio, os resultados podem ser devastadores para os recifes da região.

Até que predadores marinhos ou parasitas aprendam a se alimentar de peixe-leão, a melhor esperança para retardar a propagação desse peixe é o maior de todos os predadores: o homem.

Defensores da onda sustentável, em geral, recomendam aos consumidores ficar longe de espécies ameaçadas de extinção ou simplesmente equilibrar o consumo de algumas espécies em perigo. Mas no caso de peixe-leão, eles estão tomando o rumo oposto. Funcionários federais e fundações ecológicas nos Estados Unidos e no Caribe juntaram-se a chefs, pescadores e distribuidores para lançar uma campanha de grande amplitude: comer peixes-leão até a sua completa extinção nos locais que não constituem seu habitat natural.

O maior exemplo disso está na campanha “Eat Lionfish”, introduzida nos Estados Unidos, que tem como slogan “Pessoas que comem peixe-leão na refeição não estão apenas comendo um peixe delicioso, mas também estão contribuindo diretamente para a preservação de nossos corais e comunidade”. A fundação The Reef Environmental Education Foundation está preparando um livro de receitas para educar os chefs sobre como preparar a espécie, um peixe branco doce e delicado que tem gosto de um cruzamento entre pargo e garoupa. O peixe também surgiu como uma iguaria gourmet underground: há pelo menos três grupos no Facebook dedicados à causa, incluindo “I Spear Lionfish” e “Lionfish Derby”.

Distribuidores e pescadores, nos Estados Unidos, estão usando o peixe-leão para compensar os meses em que certas espécies estão proibidas de serem pescadas, como lagosta e garoupa (quatro meses por ano). Ao mesmo tempo, estão criando no mercado postos para trabalhadores especializados em manusear os peixes com suas espinhas venenosas.

Certas praias do litoral da Flórida e da Carolina do Norte estão promovendo “rodeios de peixe-leão”, nos quais mergulhadores os capturam para, no final do dia, fazer um banquete em suas areias brancas.

A ordem do dia é COMA PEIXE-LEÃO. A situação é tão grave que um grupo de cientistas acaba de publicar um artigo em uma revista especializada, identificando o peixe-leão como uma das 15 maiores ameaças à biodiversidade em todo o mundo.

Como conter uma invasão de peixes-leão? Simples… Frite-os!

Bom apetite!