6 de novembro de 2013

Natação

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CESAR CIELO – O SUPER-HOMEM DAS PISCINAS

Por Ana Balardim

Fotos Satiro Sodré

Nesta edição temos dois grandes motivos para muita comemoração, o fato de o Rio de Janeiro ter sido escolhido como sede dos Jogos Olímpicos para 2016 e a concessão da entrevista dada por um ídolo de todo brasileiro, o nosso campeão mundial e olímpico CESAR CIELO.

É com grande honra que apresento um dos maiores sinônimos de disciplina, perseverança e obstinação, um velocista da natação que tem ocupado as capas das principais revistas e jornais de todo mundo, contagiando os brasileiros com sua motivação e amor pelo esporte.

Cesar Augusto Cielo Filho nasceu em 10/01/1987 em Santa Bárbara D´Oeste, São Paulo, é filho do pediatra Cesar Cielo e da professora de educação física Flávia Brito Lira Cielo.

O esporte sempre esteve presente na vida de Cesar.

O nadador experimentou o judô quando criança e, por ser bem maior que os garotos de sua idade, competia contra atletas de  categorias superiores e acabava perdendo, o que fez ele desistir da modalidade. Começou então a jogar vôlei, quando ainda cursava o ensino fundamental, juntamente com a prática da natação, onde começou a ter resultados muito bons. O vôlei virou um hobby, esporte que ainda joga com o pai quando dá tempo. Ele nem imaginava que era um jovem talentoso quando começou a nadar no Esporte Clube  Barbarense.

Cielo nadou no Barbarense, sob o comando do técnico Mario Francisco Sobrinho, também nadou no Clube de Campo de Piracicaba, orientado por Reinaldo Rosa e, através de sua mãe, conheceu o técnico Alberto Silva, o Albertinho, do Pinheiros, que treinava Gustavo Borges.

Em 2003, Cielo transferiu-se para São Paulo. Treinou ao lado de Gustavo Borges pouco mais de dois anos. Gustavo deu um grande incentivo a Cesar, ao presenteá-lo com o maiô que usou na Olimpíada de Atenas/2004, em sua despedida da seleção brasileira. A peça, autografada pelo ídolo, foi  emoldurada e ganhou espaço numa das paredes da casa de Cielo.

Em 2005, Cesar Cielo foi ao Mundial de Indianápolis de piscina curta (25 metros), mesmo sem  índice. Era uma aposta da natação brasileira.

“Acho que busquei a inspiração na vitória. Continuei a  nadar, quando eu ainda era criança, porque eu estava ganhando. Minha primeira conquista veio quando eu tinha 8 anos, nadando uma prova dos 25 metros livre, num Festival do  Barbarense. Fiz os 25 metros em 18 ou 19 segundos, mas o que me inspirou a continuar nadando foi chegar em primeiro”.

Em 2006 a velocidade e a técnica do nadador levaram Cielo para os Estados Unidos, onde ganhou uma bolsa de estudos na Universidade de Auburn, no Alabama – defendeu o  uniforme laranja e azul-marinho do time de natação que foi pentacampeão em seis últimos campeonatos nacionais dos Estados Unidos. Para estudar, Cielo escolheu o curso de comércio exterior, com especialização em espanhol.

Nos primeiros anos de faculdade Cielo assinou um contrato de bolsa que proibia o atleta de quase tudo, desde ter namoradas até de sair à noite e beber. Tudo para não atrapalhar. O atleta se adaptou a Auburn, cidade pacata dos Estados Unidos, sem  trânsito ou vida noturna agitada que não oferecia outra coisa além de nadar.

Cielo foi orientado pelos técnicos David Marsh (dez vezes “Técnico do Ano” da NCAA e treinador da equipe dos EUA em duas Olimpíadas. Marsh assumiu posteriormente o comando da seleção olímpica dos Estados  Unidos), Richard Quick, (tinha experiência em seis Olimpíadas como técnico-chefe ou assistente-técnico, faleceu em 2008) e Brett Hawke (ex- nadador com experiência de duas Olimpíadas. Hawke fez os últimos meses do preparo de Cielo para a Olimpíada).

A base de tudo estava no trabalho do treinador brasileiro Alberto Silva, o Albertinho, do Pinheiros e da  seleção nacional. Um trabalho que teve continuidade com Hawke, que propôs a Cielo constantes desafios, permitindo que ele chegasse ao ouro olímpico em Pequim.

“Ele é técnico há cinco anos, já tem alguma experiência, mas ainda pensa como nadador. Acho que isso ajudou muito o  nosso relacionamento”.

Hawke fazia um treino simbólico e duro: nadar 365 piscinas, uma para cada dia do calendário.

“Achava que se chegasse às finais dos 50 m livre e 100 m livre, seria muito bom. Mas, no fundo, eu sabia que estava lá por merecimento e mudei minha atitude, meu modo de pensar. Centésimos de segundos separam vencedor e perdedor, todos estão preparados. Então, acho que a cabeça faz mesmo a diferença”.

Cesar Cielo representou a Universidade de Auburn nos campeonatos da NCAA (National Collegiate Athletic Association ou Associação Atlética Universitária  Nacional) e ganhou dez títulos, além das conferências regionais e os Dual Meets, (torneios entre duas universidades). Essas competições  possuem atletas de nível internacional.

Cielo então entrou para a história do esporte olímpico brasileiro ao conquistar a primeira medalha de ouro da natação nacional, nos 50 m livre, nos Jogos Olímpicos de  Pequim; para esta conquista o atleta deu 34 braçadas, e sem respirar nenhuma vez. Ainda superou sua marca brasileira, sul-americana e olímpica da prova, com 21s30, a dois centésimos do recorde mundial, do australiano Eamon Sullivan (21s28). Uma medalha em pouco mais de 20 segundos… Uau! A marca  anterior de Cielo, da semifinal da véspera, era 21s34. Além do ouro, ficou em 11ª no geral.

“A melhor sensação do mundo foi ver o meu nome depois do número 1”.

Cielo chorou em Pequim e suas lágrimas emocionaram os brasileiros e o público, que lotou o Cubo D´Água no sábado, dia 16 de agosto de 2008.

“Tudo começou antes da semifinal. Fiquei pensando o dia inteiro na prova, mas consegui dormir. Atrás do bloco de partida estava um pouco nervoso porque estava buscando a minha  melhor prova. Hoje foi um dia que deu tudo certo. Agora é realidade. Consegui uma coisa que busquei a vida inteira e vou continuar batalhando porque muita coisa ainda está por  vir”.

(Declaração de Cielo após a conquista da medalha de ouro nos 50m livre em Pequim)

Além dos 50m livre, Cielo deixou a China com uma medalha de bronze nos 100m livre, conquistada no dia 14 de agosto de 2008. Com 47s67, ganhou o bronze empatado com o americano  Jason Lezak. Na batalha final, o francês Alain Bernard, 47s21, ficou com o ouro e o australiano Eamon Sullivan, 47s32, com a prata.

“A insegurança perante os melhores virou motivação para eu alcançar meu sonho. Eu treinei de domingo a domingo, por que não poderia ganhar?”

Com as duas medalhas olímpicas nos Jogos de Pequim, Cielo deixa de ser “promessa” para ser o principal nome da natação brasileira em 2008.  Em agosto deste ano, já entrou no Mundial de Desportos Aquáticos, em Roma, como um dos favoritos. Confirmou essa condição e se consagrou com duas medalhas de ouro, nos 50 m livre (10s28) e nos 100 m livre (46s91) – marca que, aliás, é novo recorde mundial da prova. Cielo terminou a temporada como o nome a ser batido na natação mundial.

Pan-Americano do Rio

César Cielo deixou os Jogos Pan-Americanos do Rio, em 2007, com quatro medalhas, três delas de ouro. Com os tempos de 48s79, nos 100m livre, e de 21s84, nos 50 m livre, Cielo  superou os recordes pan-americanos das duas provas. Além disso, contribuiu para a conquista do primeiro lugar também no revezamento 4 x 100m livre ao fechar a  série brasileira com o tempo de 48s18. Para encerrar a sua participação no Rio, ele ficou com a prata no revezamento 4 x 100m medley.

Sem Fernando Scherer e Gustavo Borges, Cielo mostrou no Pan que era o velocista da nova geração. Já havia quebrado o recorde dos 100m livre, em dezembro de 2006, e depois o dos  50m livre, no Mundial de Melbourne, em março de 2007.

Na época, Cielo comemorou sua marca nos 50m.

“Esse era meu grande objetivo, bater o tempo do norte-americano. No Mundial, fiquei muito chateado por não ter ganhado medalha porque vi o tempo dele e pensei: – Posso ser melhor do que esse cara aí”.

“Consegui nadar muito bem, e agora já dá para começar a pensar em uma medalha olímpica. Atualmente, o tempo me deixa tranqüilamente entre os cinco primeiros.”

(Declaração de Cielo no Pan Americano de 2007)

Além de treinar duro e acreditar no programa de seus técnicos, Cielo tem vários mecanismos de buscar motivação, um deles é colar frases e metas pelas paredes da casa. Cielo afirma que “é muito visual” e, por isso, adota recursos a partir de palavras e imagens para se motivar.

“Vai treinar!”

“Você é seu maior adversário”

“Enquanto você está aqui tem um maluco treinando”

“Concentre-se na sua prova”

“Não se preocupe com os outros”

“Não esqueça de tomar o seu suplemento”

“Siga seus objetivos”

“Faça uma prova perfeita”

“O problema é você mesmo! Aprenda a lidar com isso e se vire”

No teto do quarto, sobre a sua cama, Cielo cola papéis com os tempos que quer fazer. Quando alcança seu objetivo queima como já fez com outros bilhetes cujas metas já conquistou.

“Gosto de queimar tudo depois, como num ritual”.

Cesar Cielo até já usou fotos de ídolos como Gustavo Borges e de Aleksandr Popov numa colagem para servir de estímulo – uma montagem em que os ídolos aparecem apontando para ele e dizendo ´esse garoto vai longe´. Também mandou colocar moldura nas capas das revistas Swimming World em que aparece Gustavo Borges e ele próprio. As molduras estão na parede lado a lado.

“Uma vez uma menina me mandou uma frase que dizia o seguinte: ´Não desperdice as chances que você mesmo criou´. Essa foi para a parede. E encaixou direitinho em mim, porque eu estava num momento difícil nos Estados Unidos, com saudade, não sabia o que fazer. Mas pensei: ´Não passei por tudo isso para ficar desesperado e deixar uma coisinha mudar o meu trajeto´. Toda hora que bate um aperto, isso me ajuda.”

Quando pergunto se hoje Cielo pratica algum ritual de incentivo antes das competições, ele conta que escolhe a dedo algumas trilhas sonoras para tocar em seu iPod, (nas finais em Pequim, o nadador escutou o tema de abertura da série “The Contender”).  Outro ritual se dá na água, ele pega água da piscina e cospe, além de se estapear até ficar com o peito marcado, vermelho.

“Tudo para ficar mais na pilha”.

Cesar terá muitos desafios pela frente, na temporada internacional de 2010, em que entra como o nadador mais rápido do mundo e recordista mundial dos 100m livre. O plano de Cesar é treinar no Pinheiros, em São Paulo, até dezembro. A partir de janeiro deverá voltar a Auburn, Alabama, nos Estados Unidos, para treinamentos com Brett Hawke.

“Meus objetivos são, hoje, mais ambiciosos. Não penso num limite. Quero melhorar, acreditar que vai dar certo. Na minha vida sempre foi assim, dando passos até o momento de eu acreditar que poderia ganhar um Mundial, não era mais um NCAA. Hoje, eu tenho a alegria de andar na rua e o pessoal vir pedir autógrafo, participar de programas de TV…. Estou curtindo. Quero continuar estabelecendo objetivos cada vez mais ambiciosos e continuar na batalha, buscando meus limites”.

E o que significa esta vitória do Brasil, tendo o Rio de Janeiro sido escolhido para sediar os Jogos Olímpicos de 2016?

“Os Jogos Olímpicos do Rio 2016 vão abrir muitas possibilidades. Teremos mais atletas competindo e uma motivação muito grande para as crianças praticarem esporte. Elas verão que dá para ser atleta de alto nível. Isso não é um sonho, é dedicação. Com os Jogos no Rio, esse estímulo será ainda maior. Particularmente, terei a chance de disputar uma Olimpíada em casa e isso é fantástico”.