6 de novembro de 2013

Never alone

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Por Laís Bozzetto :: Fotos André Antunes/ÁguaFotografia

As perguntas foram simples, mas as respostas me fizeram pensar bastante. Ao questionar o fotógrafo André Guimarães Antunes para esta matéria, acabei ganhando de presente um exemplo de amor à profissão. Um encantamento que começou quando criança, nos desenhos das histórias em quadrinhos que colecionava e que se estende até hoje naqueles detalhes humanísticos que poucos veem. Do esporte às pessoas, do sorriso às lagrimas… A fotografia tem que falar com quem a contempla. Para ele, além disso, é uma companheira inseparável: “Com ela jamais estarei sozinho”.

A história não tem um início exato, mas tem muitas pontes aéreas. Em 1970, com apenas oito meses, André se mudou com os pais para o Chile. Foram três anos fora do Brasil, até descobrir que haveria ainda muitos outros. O próximo destino foi Cuba, por mais três anos. Das terras latinas para o país de Monet e Lumière. Dos 18 anos fora do Brasil, 12 deles foram vividos na França, e foi lá, no Velho Continente europeu que a paixão pelos desenhos e figuras começou a aflorar:

“Eu tinha adoração pelas histórias em quadrinhos. Não costumava ler as partes escritas, mas tentava entender olhando apenas os desenhos. Tinha essa magia da imagem, das formas, pois sempre gostei de desenhar. Quando nós íamos a Paris para passear, eu sempre parava em frente aos cinemas para olhar as fotografias dos filmes que estavam ali expostas. O cinema despertou meu amor pela fotografia”, lembra.

Desde então, a paixão pela arte ganhou força. Mesmo tendo feito cursos de fotografia no Brasil, foi de forma autodidata que André foi se aprimorando. Segundo ele, o aprendizado se dá por meio de pesquisas, leituras e observações ‒ um exercício de aperfeiçoamento e atualização que não pode parar nunca. Único fotógrafo na família, André conta que começou como assistente do também fotógrafo Fernando Bueno. Os cliques, que na época eram publicitários, hoje mudaram de foco. Esporte é a principal área de atuação, passando por diversas modalidades como natação, esgrima, polo aquático, atletismo, ginástica artística, remo, futebol, vôlei, handebol, etc.

“No esporte o que sempre procuro mostrar é a emoção do atleta. É claro que também documento seu desempenho, mas a emoção, o esforço, a dor e a alegria são o que define melhor uma modalidade e uma competição. É nesse momento que aparece o que há de melhor no homem. Sem artefatos e mentiras, apenas a verdade”, explica

Fora do ambiente esportivo, são as pessoas que inspiram seus insights fotográficos. No estúdio é que se apresenta a segunda área de atuação do André. São ensaios de gestantes, crianças, casais e famílias. A ideia é conseguir criar um elo, uma cumplicidade com os modelos, pessoas comuns que nunca fizeram um ensaio profissional. Conseguir eternizar esses pequenos momentos de felicidade, contar uma história de amor e alegria é o que mais motiva o fotógrafo.

Uma Porto Alegre inspiradora

Sertão da Bahia, Gramado, Serra, Rio de Janeiro, Paris França. Embora já tenha conhecido ‒ e trabalhado em ‒ tantos lugares bonitos, é aqui, no eterno Porto dos Casais, que se encontram as mais detalhadas inspirações. Com seus ares interioranos, Porto Alegre é capital, porém pequena perto de outras que André conheceu. Para ele, é muito prazeroso andar aos domingos pelas ruas semidesertas do Centro: “Adoro observar o cotidiano, poder criar uma fotografia artística a partir de fatos corriqueiros. Tenho vários projetos autorais sobre Porto Alegre. Fotografar as ruas, os transeuntes, os pequenos profissionais (sapateiros, barbeiros, borracheiros). Essa cidade nos permite criar, porque te traz a criatividade necessária”.

Foi com essa criatividade que ele ganhou o Concurso Sioma Breitman 2012, que tinha como tema Porto Alegre, Cidade de Contrastes. A foto surgiu desses momentos inesperados, e o clique aconteceu na hora e no ângulo exato em que tinha de acontecer.André estava escalado para uma cobrir o treinamento de uma equipe de remo do Grêmio Náutico União na ilha do Pavão. Ainda cedo da manhã, ele e mais dois rapazes voltavam de lancha. Enquanto os outros ocupantes conversavam animados, André estava silencioso e compenetrado, segundo ele parecendo até um pouco antipático. Foi de repente que ele percebeu uma carroça solitária em cima da ponte sob a qual eles passariam. No ângulo em que ele estava, podia ver essa carroça com a cidade de Porto Alegre ao fundo:

“Eu tinha ali uma fotografia cheia de simbolismo, mas o tempo era muito curto. Eu estava numa lancha que estava em grande velocidade, se aproximando muito rapidamente da ponte; se eu demorasse, não teria mais a foto no ângulo desejado. Consegui realizar a fotografia que eu idealizei em segundos, isso porque eu não estava participando da conversa, que teria me distraído. Na verdade, mais que uma história, deixo aqui um conselho: fique sempre atento, não desligue nunca, porque se o momento decisivo passar, ele nunca mais acontecerá novamente”, conta.

Se a fotografia tem de ter sentimento, e não fronteiras, existe uma que comprova isso, e para André é especial. A fotografia do fotógrafo espanhol Samuel Aranda que ganhou o World Press deste ano resume o momento pelo qual o Oriente Médio está passando e que não nos exclui no Ocidente. Como ele mesmo diz, o mundo vive a globalização, e por essa razão estamos todos conectados. A imagem mostra um homem ferido nos braços de uma mulher de burca. Na verdade, a mulher, Fátima Al-Qaws, é uma mãe segurando seu filho de apenas 18 anos, ferido após os protestos de 15 de outubro em Sanaa, no Iêmen: “Essa imagem nos mostra como nosso mundo é frágil e incoerente, sempre em guerra. Quantas mães já sofrerem a perda de um filho? Filhos que lutavam apenas por um pouco mais de liberdade, igualdade e fraternidade. Não são esses os pilares para se começar uma sociedade mais justa e igual? O mundo está doente, e de nada adianta a globalização e as tecnologias que nos aproximam se continuarmos achando que os problemas que assolam o outro lado do mundo não nos dizem respeito. Muitas vezes uma imagem vale mais que mil palavras, e essa máxima se encaixa perfeitamente nessa foto”, desabafa o fotógrafo, dotado de um humanismo peculiar.

Esse modo doce e humano de ver o mundo através das lentes se deve também à grande admiração pelos fotógrafos humanistas como Henri Cartier-Bresson, Robert Doisneau, Frank Capra e também Steve Mc Curry, cujas fotografias também se destacam pelo incrível domínio das cores. Mas se formos falar em tecnologias e globalização, falaremos também do aumento significativo de “fotógrafos da web”. A era dos iPhones, BlackBerrys e câmeras digitais possibilitou uma democratização da fotografia, e qualquer pessoa pode fotografar e publicar na rede mundial de computadores. André não critica isso e também é democrático. Para ele, os tempos mudaram, e as pessoas têm de se adaptar: “A fotografia é um invento novo, tem apenas 200 anos; assim como ela, novas tecnologias estão por vir. Se for para facilitar nossas vidas, elas são muito bem-vindas. Antes da fotografia havia a pintura, e os grandes retratistas também se sentiram prejudicados pelo novo invento. No início, a fotografia era muito malvista por esses artistas, e demorou até ser considerada arte. É muito boa essa democratização da fotografia, o que não pode acontecer é a banalização. Os profissionais não deveriam perder tempo se queixando, pelo contrário. Já que todos podem ser fotógrafos, cabe aos profissionais o aprimoramento, para estar sempre à frente, a fim de usufruir ao máximo dessas novas tecnologias”, analisa André.

Seja com a sua Nikon (companheira fiel), seja com outra tecnologia atual, o desejo de André é fotografar os Jogos Olímpicos e a Copa do Mundo. Sonho nada distante, visto que o Brasil receberá esses megaeventos. O fotografo é apaixonado pelas Olimpíadas, pois acredita que nessa hora assistimos ao lado mais belo do homem, sem preconceitos de raça, cor ou credo. É a partir do esporte que André vê esperança, paz e sentimentos do bem.

Mas como passar tantos sentimentos por meio de uma fotografia? Afinal, qual a foto perfeita? Com vocês o relato de que falei no início desta matéria, que me faz ver como é lindo amar o que se faz:

“Eu não sei se perfeita é a palavra certa, mas posso dizer que, se você conseguir, com uma imagem, contar uma história, já é uma grande conquista. A fotografia tem que falar com quem a contempla. Uma boa imagem fará você parar e ficar olhando por alguns minutos, e depois, numa outra oportunidade, você vai querer contemplá-la novamente, porque ela o prendeu, o surpreendeu. Você acaba sentido saudade dessa imagem como a gente sente de um amigo. Se eu já consegui a fotografia perfeita? Eu não sei, acredito que são os outros que tenham que dizer, mas eu estou sempre atrás dela. A fotografia é tão importante pra mim que é difícil expressar isso em palavras. Vou acabar sendo clichê, mas ela é essencial, obrigatória, imprescindível. A fotografia é uma companheira que me define.

Eu sei que com ela jamais estarei sozinho”.